Um legado possível da Olimpíada

Em o Velho e o Mar, o escritor Ernest Hemingway escreve uma história aparentemente simples sobre uma longa disputa entre um velho pescador e um enorme peixe. Não são poucas as metáforas possíveis de se extrair dessa obra para a vida e, por consequência, para o esporte. O livro fala sobre a determinação do pescador, que supera as dificuldades do clima e do ambiente, suas limitações da idade, do equipamento e a força do seu adversário aquático.

No texto há uma frase que me marcou e que considero útil nesse momento de notório pessimismo pré-Olimpíada: “É uma estupidez não ter esperança”.

Pois é, ainda não há muito a se comemorar. A organização teve falhas. A impressão deixada pela Vila dos Atletas, por exemplo, é a de uma antessala onde hasteamos nossa bandeira do improviso e da desorganização.

Muitos daqueles que comandam os negócios dos jogos merecem a medalha da vergonha. Só para ficar em dois exemplos: o prefeito do Rio contracenou uma comédia sem graça com a delegação australiana, com direito a chave da cidade e canguru e o proprietário da construtura que comanda as obras do condomínio da Vila dos Atletas mostrou como a mentalidade de uma parte considerável do empresariado ainda está presa não aos anéis olímpicos, mas aos grilhões da escravidão.

Baía de Guanabara não escapou das metas não alcançadas e, com sorte, o iatismo não terá uma modalidade inédita em jogos: as regatas com obstáculos – no caso, o lixo.

No esporte, ainda dependemos quase sempre de exceções heroicas em modalidades olímpicas historicamente negligenciadas e sem apoio básico na formação de atletas. O esporte feminino evoluiu pouco e nossa delegação de mulheres, em casa, será a menor em cinco Olimpíadas.

Até a palavra legado, de tão desgastada, já parece maldita. Então, como ter esperança?

Primeiro, acredito que, como na Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos serão um sucesso esportivo e teremos uma festa a altura do que merece a primeira Olimpíada da América do Sul. Sim, já recusei a não me contagiar com o “espírito” da Olimpíada.

Não acredito em otimismo aleatório, mas é cedo para dizer que tudo deu errado. Claro que precisamos criticar, cobrar e aprender com nossos (muitos) erros, mas também é necessário fazer um balanço de nossas qualidades e dar vasão ao que temos de melhor. A Copa do Mundo de 58 já nos ensinou que é fundamental abandonar o complexo de vira-latas se um dia desejamos ser ouro em alguma coisa. A Olimpíada do Rio não será a primeira nem a última a ter problemas.

Mas eis aqui minha maior esperança: teremos uma cobertura da Olimpíada como nunca se viu antes.Todas as competições serão exibidas pelos meios de comunicações e, graças a indiscutíveis avanços sociais do Brasil nas últimas décadas, a Internet também tornará possível difundir para um número de pessoas jamais alcançado não apenas nossos tropeções, mas também o que apresentarmos de melhor nos Jogos.

Não receio parecer ingênuo e, muito menos, romântico. Torço – e creio – que a presença próxima de ídolos do esporte mundial e as conquistas brasileiras serão capazes de inspirar e motivar as próximas gerações, ainda imunes a nossa síndrome de inferioridade. A vontade da garotada em correr como um Bolt ou nadar como um Phelps certamente é capaz de atrapalhar os planos, a indisposição, a ganância e a incompetência de certos governantes e homens de negócio. Nas Olimpíadas do Rio podemos ter o embrião de uma numerosa delegação de futuros atletas de pessoas comprometidas a não se conformar com o nosso atraso.

Em qualquer canto do país a Olimpíada vai inserir uma memória afetiva capaz de transformar realidades de milhões de meninos e meninas. Não é pouco.

Em tempo: também não vou perder a abertura dos Jogos que promete ser inesquecível.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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