Quanto vale o seu sono?

Depois de nove meses do nascimento da minha primeira filha, perdi as contas de quantas vezes refleti sobre a importância do sono.

A falta dele engorda, causa irritação, dificulta a concentração e nos fragiliza física e emocionalmente.

Só que ficar sem dormir não é um problema apenas dos pais de primeira viagem. Basta reparar em quantos litros de café são consumidos nos escritórios das grandes cidades, além de outras bebidas valorizadas menos pelo sabor do que por suas benesses revigorantes. Em rotinas cheias de estímulos e afazeres, dormir se tornou um luxo restrito a poucos e bons.

De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente (IPOM)realizado no fim de 2012, 69% dos brasileiros consideraram ter um sono ruim ou insatisfatório. Esse dado já apresentava um crescimento de 25% entre os reclamantes da falta de sono em comparação a 2007. Em 2016, a revista Science Advances fez um levantamento e mostrou que, atrás de japoneses e cingapurianos por poucos minutos, os brasileiros estão entre aqueles que menos dormem por noite, com uma média de  7h36m de sono.

Depois da explosão das dietas milagrosas e comida saudável, sintoma da nossa má alimentação, das academias de ginásticas e dos treinos revolucionários, reflexo do nosso sedentarismo, a “cura” para a falta de sono tem tudo pra ser a próxima onda que tem como origem o trinômio vida moderna, tecnologia e comodidade, combinação que nos proporciona indiscutíveis vantagens, mas que também nos priva de hábitos necessários.

Desconfio do surgimento de mercados milionários direcionados para suprir miraculosamente as necessidades que nosso próprio modelo de vida criou. É um paradoxo. Para suprir as exigências do “mercado” trabalha-se muito, perde-se muito tempo em infinitas tarefas e quando se acumula algum dinheiro, usamos para repor aquilo que foi deixado de lado justamente no esforço de alcançá-lo.

Em artigo no New York Times, a jornalista Penelope Green listou uma série de tendências sobre como o sono já se tornou uma espécie de símbolo de sucesso e também um promissor mercado nos EUA. Será cada vez menos estranho em vez de ostentar um carro, uma roupa ou um jantar, alguém se gabar por dormir bem.

Não são apenas colchões, chás e pílulas. A jornalista relata desde travesseiros que esfriam a cabeça durante a noite até lâmpadas que prometem aumentar a melatonina do organismo. O “mercado do sono” promete usar toda a tecnologia que já nos tirou tantas horas de descanso para, quem sabe, devolvê-las. Óculos especiais, aplicativos, gadgets e outras bugigangas já estão sendo desenvolvidas e comercializadas com uma farta munição de pesquisas e muita lábia.

Chamou minha atenção descobrir que o ator Jeff Bridges lançou um disco com músicas faladas como forma de estimular, digamos, o apetite das pessoas para o sono (para quem se interessar, o álbum chama-se “Dreaming with Jeff”).

Descontando-se o fato de que devemos estar preparados para desviar das soluções e receitas mágicas, há algo positivo nessa tendência: a possibilidade de se questionar modelos que nos levaram a desesperadora situação em que uma ação tão primitiva quanto dormir virou luxo.

Se antes era bacana alguém se vangloriar por ter passado a noite trabalhando sem dormir, talvez agora não seja tão legal. Em uma sociedade em que pouca gente consegue dormir o suficiente, todo mundo já percebeu que passar noites em claro não é um bom negócio, nos mais diversos significados da palavra.

A executiva Ariana Huffington foi a primeira pessoa que me lembro de falar abertamente sobre como dormir bem é vital, inclusive para o sucesso profissional. Ano passado ela lançou um livro sobre o tema (“The Sleep Revolution: Transforming Your Life One Night at a Time”). No caso dela, a ideia surgiu depois de seguidas noites mal dormidas que a levaram a um colapso físico e mental.

Portanto, é praticamente certo que muita gente ainda vai abraçar a causa do sono e também ganhar dinheiro com ela.

Tomara essa tendência nos leve a encontrar respostas para transformar (e melhorar) nossa rotina e nossas noites.

Mas para separar as promessas milagrosas das soluções reais, é preciso manter os olhos bem abertos. Por mais doloroso que isso possa parecer.

Boa noite!

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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