Meritocracia no Brasil. Existe? Onde vive? Do que se alimenta?

A história é contada pelos vencedores. O velho adágio pode perfeitamente ser aplicado no Brasil.

Ouvindo as histórias de quem “venceu na vida”, pode-se pensar que sair da base para o cume da montanha social é possível para qualquer um. Basta querer.

A possibilidade de que alguém é capaz de alcançar um patamar mais alto da escalada social apenas pelo próprio esforço é o que muitos se acostumaram a chamar de meritocracia, palavra embebida no ideal do “sonho americano”, um conceito já meio fora de moda até nos EUA, mas que em sua essência ofereceria as mesmas chances a todos.

O problema da ideia de meritocracia é tentar vendê-la como realidade ignorando-se contextos e circunstâncias. Como ter as mesmas chances sem as mesmas condições?

É mais fácil falar em meritocracia dentro de uma empresa onde as pessoas trabalham em condições iguais do que em um país inteiro. Principalmente se esse país for desigual como o Brasil.

Meritocracia só existe quando há igualdade de condições. Ou alguém defenderia o mérito do vencedor de uma corrida que ganha uma prova porque largou vários metros à frente dos demais?

Um estudo realizado em 2016 por dois economistas do Federal Reserve Bank of Boston, Richard Reeves e Elizabeth Sawhill, nos Estados Unidos, país menos desigual que o Brasil, mas onde o fosso entre classes sociais vem aumentando, mostrou que na maior parte dos casos a meritocracia é conversa de auditório. Aqueles que saem de baixo e fluem livremente para o alto da são as exceções que confirmam a regra.

A pesquisa também mostra em detalhes como a desigualdade social e racial são, na maioria dos casos, muros intransponíveis para quem está na parte de baixo e facilitadores para quem está na parte de cima. Nos EUA, a chance de uma criança negra permanecer na mesma classe social é de 51% enquanto a de uma criança branca é de apenas 23%.

Esse mesmo estudo também mostra que uma baixa escolaridade atrapalha bem menos o sucesso financeiro quando a pessoa tem menos estudo, mas é mais rica. O que é absolutamente oposto à tese meritocrática.

Os economistas analisaram 16 países e o Brasil fica na rabeira. É o lugar com a menor mobilidade social entre todos, atrás inclusive da África do Sul. A principal razão, segundo eles, é a falta de mobilidade educacional. Em outra palavras, pobre ter menos escolaridade e o rico mais, é menos que uma tendência. É praticamente uma regra.

“Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado” Mateus 25, 29

Quando falamos da escola, aplicar o conceito da meritocracia para os estudantes mais uma vez parece uma ideia frouxa. Uma análise pormenorizada de dados do Ministério da Educação comparando alunos de escolas públicas e particulares no Brasil evidencia que a estrutura familiar e o poder econômico são fatores decisivos para os desempenhos dos alunos. Estar acima na pirâmide social não é tudo, mas ajuda muito no processo de aprendizagem.

O médico e escritor Dráuzio Varella publicou em uma de suas colunas um estudo feito nos EUA, na Universidade de Columbia, que comprova como a má nutrição de crianças atrapalha anatomicamente o desenvolvimento dos seus cérebros. Ou seja, os indivíduos mais pobres, que tendem a ter um déficit nutricional maior, ficam prejudicados no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado. Na corrida pelo sucesso, os pobres largam bem mais atrás.

Mais uma vez, o enorme buraco da desigualdade brasileira engole oportunidades e também qualquer centelha de meritocracia.

Em países como a Dinamarca, a educação não é um problema que dificulta a mobilidade social, tampouco parece ser a razão disso. Como lá todos os cidadãos possuem acesso gratuito e cursam praticamente as mesmas escolas, o que se faz para promover a mobilidade social é cobrar altos impostos dos mais ricos e taxas mais baixas dos mais pobres.

Mesmo assim, até a Dinamarca comprova que o fato de ter pais ricos é um diferencial quando se fala em oportunidades.

Uma coisa parece certa: exaltar a meritocracia quando não há um mínimo de igualdade é apenas ponto de fuga de um problema grave ou um esforço para que tudo continua exatamente como está.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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