Streaming de uma nota só

A IFPI (sigla em inglês para Federação Internacional da Indústria Fonográfica), divulgou o crescimento do consumo de música por streaming no mundo.

No Brasil, o serviço que permite ouvir música sem fazer downloads, aumentou 52%. Só esse dado é suficiente para muita discussão sobre a reviravolta da indústria fonográfica que, depois de tempos sombrios trazidos pela Internet, parece ter aprendido a usá-la a seu favor e, assim, engordar seu faturamento global em 5,9% no último ano. Na indústria brasileira, o consumo digital representou 48,6% do faturamento.

No entanto, o que me tocou mais forte foi a lista das músicas mais ouvidas. Das 40 faixas mais executadas no Brasil em serviços como Deezer, Napster, Apple, Spotify e GooglePlay, o sertanejo é o estilo musical que responde por 42,5% da lista.

Longe de ser um fã de sertanejo, ressalto que não é a presença do estilo entre as mais ouvidas que me incomoda. Também não acredito que o problema do Brasil esteja nas músicas consideradas de gosto popular, que me soa como elitismo desafinado. O que me parece bem mais oportuno é questionar tamanha supremacia de uma única vertente musical em um país tão grande e diverso quanto o Brasil.

O que me parece bem mais oportuno é questionar tamanha supremacia de uma única vertente musical em um país tão grande e diverso quanto o Brasil.

Dias atrás conversava com amigos sobre como era difícil ser um adolescente que gostava de Heavy Metal no interior de São Paulo. Para ter acesso a esse tipo de música precisava recorrer basicamente às revistas segmentadas como a Rock Brigade, a um programa da finada MTV (o Fúria Metal, com Gastão Moreira) e a duas lojas de discos. Na época, quando os CDs eram a coisa mais moderna em matéria de música, cheguei a alugar(!) vários deles para gravar em K7 e, mais tarde, em discos graváveis. A primeira vez que estive na Galeria do Rock, em São Paulo, quase chorei de emoção.

Embora como típico adolescente eu tenha passado muito tempo na bolha da turma do Heavy Metal, minha curiosidade e o hábito de pesquisar eram a única forma possível de estar em contato com o som que curtia. Felizmente, esse hábito fez com que minha amplitude musical aumentasse com o tempo: música clássica, MPB, ritmos latinos e as vertentes do rock e pop de diferentes países. Fuçar foi e é fundamental para aumentar meu repertório.

Para garimpar informação a Internet pode ser uma maravilha. Basta digitar algumas palavras no campo de busca e um novo universo a ser descoberto se abre na tela do computador ou celular. Mas como mostra essa pesquisa da IFPI não é bem assim que a banda toca pra muita gente.

Mesmo com tantos recursos à disposição, o brasileiro está restrito a um ou, no máximo, dois estilos. Quando o sertanejo dá uma folga, aparece lá um funk. É claro que a mesmice não é hit só no Brasil. A lista também dá pistas sobre como a pluralidade musical é abafada globalmente pelas fórmulas repetidas e pela comodidade das pessoas.

Muito já se falou sobre as bolhas criadas no ambiente digital. São elas uma espécie de edificações invisíveis, sustentadas por algoritmos e pessoas que se uniram na criação de “salas virtuais” hermeticamente fechadas onde gostos e opiniões semelhantes se unem com pouco ou nenhum contato com o mundo externo.

A mesmice do consumo de música diz muito sobre como cada vez mais temos dificuldade de enxergar um horizonte que não seja tão curto quanto a esquina de casa. O paradoxo é que mesmo com fontes de informação e uma oferta de diferentes pontos de vista tão amplas, podemos ficar ainda mais surdos e limitados.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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