O que ensina a profissão mais difícil do mundo

São muitas as profissões mais difíceis do mundo, imagino. Há listas e rankings sobre o tema, mas peço licença para uma escolha totalmente subjetiva.

Acabei de ler Carcereiros, livro do médico e escritor Dráuzio Varella, que serviu como base para uma série da Rede Globo (o piloto da série foi premiado mesmo antes de estrear. A partir de hoje, está disponível no Globo Play).

O livro é o que poderíamos chamar de um conjunto de narrativas feitas por diferentes fontes que o autor conheceu no tempo em que fazia trabalho voluntário no sistema penitenciário paulista.

É importante grifar a palavra fonte, já que é praticamente impossível negar sua qualidade jornalística.

Sustentado nas histórias contadas pelos responsáveis em manter a ordem e preservar vidas no caos das cadeias brasileiras, Drauzio Varella descreve a rotina de uma profissão na qual o salário é baixo, o clima é péssimo, a flexibilidade de horário inexiste – já que muitos precisam fazer bicos para complementar a renda – e ainda há o risco iminente de perder a vida.

A maioria dos carcereiros escolhe a profissão pela estabilidade do funcionalismo. Ou seja, o medo do desemprego é maior do que o de trabalhar em um lugar cheio de criminosos.

o medo do desemprego é maior do que o de trabalhar em um lugar cheio de criminosos.

Drauzio Varella já havia revelado muito sobre as vidas na prisão em outro livro, Estação Carandiru. A diferença é que neste ele conta a história sob o ponto de vista dos trabalhadores do xadrez, aqueles funcionários públicos responsáveis por fazer com que os processos funcionem em um ambiente de trabalho desumano.

Contudo, em oposição a toda espécie de desumanidade que permeia uma prisão, é justamente o olhar humanista que nos permite entrar em mundo absolutamente desconhecido para 99% das pessoas comuns, que muitas vezes imaginam ter o pior emprego de todos.

A visão humana oferece a Drauzio a sensibilidade necessária para relatar casos tão diferentes quanto impressionantes sem maniqueísmo e também a capacidade de fazer uma análise sem os chavões e os lugares-comuns tantas vezes repetidos.

Por parte dos carcereiros, é também o entendimento dos presos como seres humanos; com suas histórias, seus dramas e seus vícios, que lhes permite lidar com habilidade em situações tão tensas quanto uma rebelião ou uma tentativa de fuga. E ainda preservar as vidas dos presos e de quem trabalha na cadeia.

Em um dos melhores capítulos do livro, o Inferno de Joyce, Drauzio cita uma frase lapidar,  que serve como reflexão para qualquer coisa na vida, inclusive o trabalho: “para todo problema complexo existe uma resposta simples. Sempre errada”.

Ele não poupa críticas aos modelos simplistas de pensamento e de ação dos governantes que só ajudam a perpetuar e aumentar o caos das prisões do país, ignorando que a causa maior está sempre ligada às questões estruturais como a injustiça e a desigualdade social.

A complexidade das situações e personagens é o que há de melhor no livro. Há situações, contextos e decisões influenciadas pelas mais diversas motivações. A rotina da cadeia possui regras próprias e códigos morais bastante particulares. Por isso, há também os carcereiros que sucumbem às chances de ganhar um dinheiro fácil.

Já os bons carcereiros trabalham como especialistas em gestão de crise todos os dias. Poderiam e deveriam ser melhor aproveitados nas gestões públicas que desejassem realmente aprimorar nosso sistema carcerário.

os bons carcereiros trabalham como especialistas em gestão de crise todos os dias. Poderiam e deveriam ser melhor aproveitados nas gestões públicas que desejassem realmente aprimorar nosso sistema carcerário

Em tempos que a palavra gestor é repetida sem que se pare para pensar sobre o que ela realmente significa ou qual é o objetivo de uma gestão pública eficiente, Carcereiros é um exercício importante.

Aprender a ouvir, sentir e buscar as diversas facetas humanas envolvidas em um grande problema é essencial para o sucesso daquela que parece ser a profissão mais difícil do mundo.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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