Carros: um símbolo de ineficiência e atraso cultural

Antes de servir como arma para ataques terroristas covardes, já não me simpatizava muito com carros. Vendi o meu há cinco anos e não me arrependo. Às vezes, ao viajar, ele é necessário para o transporte da família toda. No dia a dia, faço questão de não precisar dirigir nada além da bicicleta e dos meus calcanhares.

O que me incomoda é a ideia do carro como algo inseparável do corpo, como se fôssemos transformers de carne e osso e lata.

Mas é melhor explicar. Não que odeie os carros (talvez só um pouquinho) ou deseje o fim da indústria automobilística. O que me incomoda é a ideia do carro como algo inseparável do corpo, como se fôssemos transformers de carne e osso e lata. O tema é óbvio e já foi debatido inúmeras vezes. Mas percebo que de tão óbvias, algumas coisas acabam ignoradas.

É evidente e cada vez mais insustentável a mentalidade urbanóide que insiste em priorizar esse meio de transporte. Para usar um termo do pessoal que gosta de falar de inovação (e muitas vezes vai trabalhar de carro…), precisamos de uma disrupçãomental.

Se ainda restam dúvidas de que o carro se tornou um dos grandes símbolos de ineficiência dos nossos tempos, pretendo cercar pontos fundamentais da qualidade de vida: transporte, segurança, saúde e meio ambiente.

Solução? Penso que o “problema carro” não é apenas uma questão de infraestrutura, de muitas obras e grandes investimentos. É cultural.

Não adianta sonhar com a chegada dos veículos autônomos enquanto sofremos dia após dia dentro de uma carcaça motorizada. É como se a mentalidade do brasileiro tivesse estacionado desde que em 1928 o então presidente Washington Luís proclamou que “governar é abrir estradas”. Mesmo que ele nunca tenha dito que era preciso entupi-las com tantos carros.

Carro é ruim para o transporte 

Dê uma olhada abaixo no comparativo de ocupação de espaço pelas pessoas utilizando os mais diferentes meios de transporte. Adivinhe qual o mais ineficiente? As imagens foram feitas por um pessoal de Seattle, onde se identificou que 75% do tempo as pessoas usam os carros sozinhas. Em São Paulo, carros ocupam 88,1% das vias.

Há décadas países desenvolvidos projetam cidades mais independentes dos automóveis.

Quem se defende diz que o governo não investe em transporte público, o que dificulta deixar o carro na garagem. Mas será que as pessoas apoiariam um candidato que apresentasse propostas para frear o espaço dos carros como fizeram as prefeituras de Londres, Bogotá, Madrid, Munique e outras cidades do mundo? Pare e pense.

Segundo o especialista em mobilidade urbana, Carlos Aranha “Não existe nenhuma cidade grande no mundo que tenha resolvido seu problema de mobilidade urbana investindo no transporte individual motorizado”

Carro é ruim para a segurança

Questões culturais se refletem na política. E como carro não é diferente. O apego desmesurado pelo amigão de quatro rodas fez com que muitos paulistanos tivessem no aumento das velocidades dos automóveis um argumento lacrador para depositar seu voto nas eleições da cidade.

O prefeito João Dória foi eleito com o slogan “Acelera, São Paulo”. Um trocadilho que prometia colocar São Paulo na rota de crescimento, mas que indiscutivelmente também faz alusão ao limite de velocidade das marginais que voltaram a subir – mesmo contrariando estudos e tendências internacionais – junto com as mortes de pedestres e ciclistas no trânsito.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, “O número de ciclistas mortos na capital paulista aumentou 64% nos primeiros sete meses de 2017, a maior variação no período”. E se você acha que eleição não tem a ver com isso, William Cruz, criador do projeto Vá de Bike, pensa diferente: “Há um clima ‘anticiclovia’ desde a última eleição. E o ciclista que anda todos os dias nas ruas de São Paulo percebe maior tensão e maior ameaça dos motoristas”.

Não só ciclistas. O número de pedestres que morreram em acidentes de trânsito também aumentou, com 40 mortes a mais em apenas sete meses.

Não se engane: o que envolve toda essa discussão é a mentalidade de sempre se privilegiar o automóvel. Por isso é uma tarefa ingrata um pedestre atravessar a rua mesmo na faixa de segurança, algo impensável em outros países.

Essa enorme dificuldade em cruzar uma rua existe simplesmente porque motoristas de carro acreditam que a preferência deles é vitalícia. E em São Paulo é mesmo. Muito embora a lei aponte em outra direção: “veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores”.

Carro é ruim para o meio ambiente

Quando a gente vê aquele busão soltando fumaça preta ou o caminhão que queima óleo pelo meio da estrada a gente fica com a visão turva, acreditando que o carro é bem menos poluentes do que esses veículos a diesel. Mas não é bem assim. Quando consideramos todo o contingente de caminhões e ônibus comparado ao de carros, a realidade é outra.

São tantos automóveis que juntos eles representam 72% das emissões de gases causadores do efeito estufa.

Além disso, emitem, proporcionalmente por passageiro e quilômetro rodado, o maior número de materiais particulados.

Sem falar no aquecimento global. Assunto que é outra obviedade e que voltou ao topo da agenda com o enfurecimento dos furacões e tempestades que devastaram os EUA e Caribe. Uma estimativa da ONU mostra que soma das emissões que as pessoas provocam ao ligar o carro, acender o fogão ou comer carne jogam um volume de gás carbônico na atmosfera comparável ao de fenômenos naturais, como vulcões e incêndios florestais.

Carro é ruim para a saúde

Desde que parei de usar carro, me acostumei a andar distâncias maiores a pé. Todos os dias consigo fazer uma mínima atividade física. Sem falar, é claro, que quando olho o trânsito ao meu lado, lembro que não preciso passar pelo estresse de estar dentro de um lugar fechado, parado, escutando buzinas, sirenes e desviando de malucos apressados.

Mais do que o sedentarismo, o carro também ajuda a agravar um típico problema da vida contemporânea: as dores nas costas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, 80% das pessoas tem, teve ou terá dores nas costas algum dia. É claro que o carro não é o único responsável por isso, mas é impossível ignorar a quantidade de gente que passa horas sentada com a coluna torta por causa dele.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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