Vamos deixar as fake news só para a ficção

Ninguém gosta de ser enganado. Ninguém vai querer seguir alguém que compartilha notícias falsas. Portanto, é bom ficar ainda mais esperto em 2018

Há 80 anos uma notícia espalhou pânico nos EUA. Em uma transmissão de rádio da CBS, o então desconhecido Orson Welles fez uma dramatização do livro A Guerra dos Mundos, do escritor britânico Herbert George Wells.

Ao trocar os nomes das localidades inglesas por cidades da Costa Leste americana, incluir efeitos sonoros e depoimentos de testemunhas, Welles conferiu sabor de notícia ao que seria uma invasão marciana à Terra. Estima-se que das 6 milhões de pessoas impactadas pela transmissão, 1,2 milhão tenham acreditado no que ouviram pela rádio. Três cidades, incluindo Nova Jersey, de onde a CBS emitia seus sinais, ficaram totalmente paralisadas. Pânico generalizado.

Como a maioria daquilo que muitos gurus consideram novidades só concebidas a partir da tecnologia digital, espalhar notícias falsas (a.k.a. fake news) não é tão novo assim. O que muda agora, além do meio de propagação, é a transformação de algo episódico em um negócio sistemático, lucrativo e com finalidades específicas. O que para Welles era uma modalidade da ficção se tornou parte de nossa realidade.

Como demonstrou Welles, as fake news são uma forma eficiente para disseminar medo. Talvez por isso elas têm sido muito utilizadas para distorcer/fabricar informações e manobrar a opinião pública para gerar cliques em sites especializados em difusão de mentiras. Acabam como gatilhos eficientes para incitar manifestações coletivas ou até mesmo com o objetivo de ajudar candidatos e ideologias de gosto duvidoso.

As fake news são uma forma eficiente para disseminar medo. Talvez por isso elas têm sido muito utilizadas para distorcer/fabricar informações e manobrar a opinião pública para gerar cliques em sites especializados em difusão de mentiras

Impossível não falar de fake news e não lembrar da eleição de Donald Trump. Como apontou Aaron Aorkin, criador da série West Wing, se Trump fosse apresentado pela ficção seria considerado pouco verossímil. Aparentemente ele é uma aberração só possível em uma realidade onde informações circulam em altíssima velocidade. No caso, informações que tem como principal meta a desinformação.

Não tenho dúvidas de que com a migração de parte dos recursos de campanha da TV para  a Internet, a difusão de notícias e perfis falsos para favorecer candidatos será um expediente tão comum nas eleições brasileiras quanto às pesquisas de opinião. Como cada vez mais gente acredita se manter bem informada apenas rolando a linha do tempo do Facebook ou recebendo mensagens encaminhadas pelo WhatsApp, não tenho medo de errar se disser que as notícias falsas tendem a ser um vilão importante das eleições desse ano. Um vilão tão vil quanto os tradicionais de terno, gravata, discursos reticentes e promessas vazias.

Não acredito que eliminar as fake news do jogo político resolverá os graves problemas que a democracia atravessa no mundo. Uso como exemplo um artigo publicado pela jornalista Masha Gesen na revista New Yorker, no qual ela mostra que muita gente que votou em Trump não, necessariamente, era consumidor de fake news ou foi manipulado por elas.

No entanto, enxergo a democracia como um grande rio poluído. Limpar não é coisa rápida. Leva tempo e muitas medidas são necessárias. Contudo, como se sabe, tratar o esgoto antes de despejá-lo em um rio é fundamental e as fake news são um dejeto tóxico que precisa ser cuidado o quanto antes.

Enxergo a democracia como um grande rio poluído. Limpar não é coisa rápida. Leva tempo e muitas medidas são necessárias. Contudo, como se sabe, tratar o esgoto antes de despejá-lo em um rio é fundamental e asfake news são um dejeto tóxico que precisa ser cuidado o quanto antes

A França já mostrou preocupação com esse fenômeno e as plataformas sociais estão se movimentado para coibir as fake news. No Brasil, novas regras de impulsionamento pago de conteúdo político foram estabelecidas. Enquanto isso, alguns  políticos aproveitam a disseminação do termo e deturpam o conceito defake news para desqualificar notícias que lhe sejam negativas. Trump, mais uma vez é o exemplo óbvio, mas no Brasil há outros que repetem a expressão como forma de contestar uma informação que lhe desagrade. Vale à pena refletir se quem propositalmente confunde o significado das fake news não faz isso porque se beneficia delas.

Por isso, é necessário que os usuários, ou seja, todos nós, também tomemos precauções. Até porque as notícias falsas hoje podem sair de um único celular sem passar por nenhuma rede social e, mesmo assim, se espalhar. Como a maioria dos problemas brasileiros, o combate ao efeito dessas notícias falsas deve começar pela educação, o que também é um fator adicional de preocupação se levarmos em conta como ela tem sido tratada por aqui.

Temos que aprender a ser editores de nossas próprias vidas, cada vez mais pautadas por nossas timelines. Desconfiar de um print, de um texto e até mesmo um vídeo que recebemos no celular. Aprender a procurar fontes confiáveis para se informar e saber em quem devemos votar ou, até mais importante, em quem não votar. O combate a boataria programada deve começar nas escolas, estar nas conversas de bar e até na pregação das igrejas. Desconfie principalmente daquela “informação” que acabou de chegar e parece combinar tanto com o que você pensa ou deseja.

Desconfie principalmente daquela “informação” que acabou de chegar e parece combinar tanto com o que você pensa ou deseja

Aconselho a ficarmos de olho nas agências de checagem e em portais que pesquisam mensagens, correntes virais e discursos de políticos, uma das poucas coisas boas que esse fenômeno grotesco das fake news propiciou. Também acho importante divulgar desmentidos e fazer marcação cerrada em comunidades, perfis e até mesmo em alguns movimentos que se dizem livres ou democráticos, mas que também são tentáculos armados para o disparo dessas notícias falsas com objetivos políticos bastante particulares. Muitos deles, inclusive, críticos das agências de checagem e outras fontes que coíbem a mentira que não tem perna curta, mas tem cauda longa.

Com a lição que aprendi em 2014, tentarei ao máximo evitar os debates improdutivos em redes sociais sobre candidatos e/ou partidos políticos. Perda de tempo e de saúde mental.  Para acusar e defender os partidos e candidatos mais ricos haverá muitas equipes e agências envolvidas recebendo bem pra isso. É urgente tomar partido contra as notícias falsas e aprender a separar a realidade da ficção.

___________________________________________________________________________________________

Como você gosta de ler, conheça também meu canal no YouTube sobre livros e cultura.

Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s