A soneca pode aumentar a produtividade. Mas ela é a solução para nossas noites mal dormidas?

No último 16 de março descobri que existe o Dia Mundial do Sono. Ter uma data dedicada já é um indício de que alguma coisa vem sendo oprimida, subjugada ou negligenciada pela sociedade há tempos.

Boletim Diário LinkedIn publicou recentemente uma pesquisa sobre como a qualidade do sono do brasileiro piorou bastante na última década em todas as faixas etárias embora as noites mal dormidas são mais frequentes quanto mais idosa é a pessoa. Em média, 60% dos brasileiros consideram ter um sono ótimo ou bom. Mas para quem está acima dos 55 anos, esse número cai para 54%. Ou seja, pelo menos 40% do população não considera que dorme bem. Para a especialista em sono Dalva Poyares “Há cada vez mais oferta de serviços, mais contas a pagar, mais estímulos, contatos, mais vida 24h/dia”.

Mas esse não é um problema exclusivamente brasileiro. Uma pesquisa do Instituto Gallup de 1942 dizia que a média global de horas dormidas por noite era de 7,9. Atualmente, de acordo com a Fundação do Sono da Inglaterra, nos EUA esse dado é cerca de seis horas e 31 minutos e no Reino Unido de seis horas e 49 minutos. Ou seja, as horas de sono diminuíram no planeta inteiro. Um estudo feito em cinco países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) concluiu que indivíduos que dormem menos de seis horas diárias possuem 13% mais chances de morrer.

Um estudo feito em cinco países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) concluiu que indivíduos que dormem menos de seis horas diárias possuem 13% mais chances de morrer.

Há quem diga que o primeiro a prejudicar nosso sono diário foi Thomas Edison e sua invenção do bulbo elétrico. Pesquisadores afirmam que a luz artificial pode ter tirado de uma a duas horas de sono da vida moderna.

O próprio Thomas Edison sempre enalteceu o fato de que sua invenção permitiu a qualquer um dormir depois das galinhas. Ele próprio cultivava o hábito de dormir pouco à noite e celebrava essa falta de sono como um sinal de produtividade. No entanto, é em outro hábito seu que pode estar a chave para ajudar o sonambulismo contemporâneo: Thomas Edison era adepto do cochilo estratégico diário (nome marqueteiro que encontrei para suas sonecas diurnas) embora ele não fizesse muito alarde sobre isso.

Mas ao contrário da lâmpada, Thomas Edison não foi o primeiro a desenvolver essa ideia da soneca durante o dia. Os espanhóis, por exemplo, possuem o hábito da sesta há eras e até hoje muitos deles guardam rigorosamente o horário depois do almoço para dormir, ainda que alguns costumes das grandes empresas como trabalhar muito, comer rápido e, claro, não interromper o trabalho depois da refeição tenham contaminado um pouco essa tradição. Inclusive, em 2016 houve uma tentativa de eliminar por lei esse antigo hábito ibérico.

Cientificamente é comprovado que uma noite bem dormida ajuda à criatividade. Já pesquisas bem mais recentes apontam que o cochilo pode ser uma saída não só para combater a falta de sono como também para aumentar a produtividade. Para a professora da Universidade de Ohio, Rita Aouad, uma soneca à tarde de 20 minutos ajuda na atenção, vigilância e no estado de alerta.  Por isso, há também empresas que apostam no cochilo como uma saída para melhorar o desempenho de seus funcionários. Não é por pouco. O neurocientista e especialista em sono Matthew Walker acredita que países desenvolvidos percam 2% do PIB por conta do déficit de sono da população.

O neurocientista e especialista em sono Matthew Walker acredita que países desenvolvidos percam 2% do PIB por conta do déficit de sono da população

Em 2014, o Google Trends anunciava um incremento de 50% das buscas relativas ao sono em dez anos. Portanto, não há dúvida que esse é um assunto que atormenta muita gente. Atualmente, o próprio Google disponibiliza uma espécie de cápsula no seu escritório de alguns países onde os funcionários podem fechar os olhos e dormir um pouco durante o expediente. A Nike, em seu escritório de Portland, possui salas para meditação e cochilos. A Procter & Gamble utiliza um sistema de luzes para regular a melatonina (hormônio do sono) dos seus funcionários e a Ben & Jerry´s possui quartos para dormir há mais de uma década.

No Japão não só as empresas disponibilizam espaços apropriados para uma soneca como há também locais públicos dedicados ao cochilo durante o dia. Aliás, os japoneses têm até uma palavra própria para o costume de dispor parte do seu tempo para repor as energias com uma dormidinha: inemuri. Curiosamente, essa foi uma herança de missionários espanhóis que viveram por lá.  Esse repouso estratégico, o inemuri, dos japoneses não parece ser um acaso já que eles também possuem outra palavra emblemática: karoshi, que significa morte por excesso de trabalho.

Esse repouso estratégico, o inemuri, dos japoneses não parece ser um acaso já que eles também possuem outra palavra emblemática: k aroshi, que significa morte por excesso de trabalho.

Por outro lado, há especialistas que acreditam que essa recente aceitação da soneca pode ser também uma forma de mascarar um problema maior que é justamente a falta de sono durante a noite. Os economistas Matthew Gibson and Jeffrey Shrader concluíram em um paper feito a partir de uma pesquisa sobre os hábitos de sono dos americanos que dormir mal pode até interferir nos salários dos trabalhadores.

Mas quando o assunto são as sonecas durante o dia Shrader tem uma posição menos entusiasmada. Para ele, essas cochiladas são uma “máscara” que acobertam um problema maior: nós não estamos dormindo bem à noite e ponto final.

É possível mesmo que as sonecas não sejam a solução para curar a epidemia global de noites mal dormidas. Mas certamente desestigmatizar a relação do sono com à falta de produtividade pode colaborar para que todos possam repousar a cabeça no travesseiro muito mais tranquilos.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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