Desigualdade: por que se fala tão pouco do maior problema do Brasil?

A desigualdade social não é nova nem é uma exclusividade do Brasil. Mas é possível que suas consequências nocivas nunca tenham sido tão evidentes como são hoje em qualquer lugar do mundo. Difícil entender por que aqui a discussão desse tema seja tão silenciosa.

O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 5% dos mais ricos possuem uma renda comparável a todo o resto da população. Se ainda ficou difícil medir o tamanho do abismo, aí vai outro dado: 6 pessoas juntas abocanham uma fatia igual a de 100 milhões dos brasileiros mais pobres.

É espantoso que a desigualdade brasileira não seja o principal assunto da corrida eleitoral deste ano

É espantoso que a desigualdade brasileira não seja o principal assunto da corrida eleitoral deste ano em um cenário como esse.  As campanhas e coligações partidárias caminham em passos cada vez mais largos e pouquíssimos candidatos se manifestam em relação a isso.

Nas redes sociais, especialmente durante a Copa do Mundo, houve muitas comparações entre o Brasil e países como Suécia, Suíça e Japão. Algumas dessas análises fora de hora publicadas até por economistas ou especialistas influentes. Falava-se de IDH, de educação, de saúde, mas nenhuma menção sobre um fator em comum a todos esses povos bem-sucedidos: pouca concentração de renda.

Arrisco que há um medo de se usar a palavra “desigualdade”. Há quem pense que combatê-la signifique que todo mundo deva ser rigorosamente igual, com o mesmo salário e as mesmas contas a pagar. No Brasil, às vezes parece que uma mera menção a diminuir a desigualdade já leva alguns a pensar sobre uma revolução e a classe média já treme de medo de perder suas migalhas de privilégio conquistadas a duras penas.

Dinamarca, Finlândia, Japão, Canadá e tantos outros são países que há tempos possuem políticas de combate à desigualdade e nunca passaram por uma revolução bolchevique. Projetos como “renda mínima”, capazes de reduzir o buraco da extrema pobreza hoje são defendidos por economistas, estudiosos e até empresários de diferentes espectros ideológicos.

É compreensível que saúde, educação e segurança naturalmente apareçam como prioridades para qualquer eleitor no Brasil. Mas se escavamos um pouquinho abaixo dessas demandas veremos que a desigualdade está na raiz de todas elas.

Taxas de homicídio, população carcerária e mortalidade infantil crescem na medida em que aumenta a distância entre os mais ricos e os mais pobres de uma população, inclusive em nações ricas. Já alfabetização, expectativa de vida e confiança nas outras pessoas aumentam em países mais igualitários.

Em 2011, o professor escocês Richard Wilkinson, apresentou um estudo no qual comparou os 40 países mais ricos e mostrou como indicadores em todas essas áreas eram melhores nos lugares onde a riqueza é melhor distribuída. Simplificando: claro que ter uma economia forte é importante, mas só isso não resolve. Taxas de homicídio, população carcerária e mortalidade infantil crescem na medida em que aumenta a distância entre os mais ricos e os mais pobres de uma população, inclusive em nações ricas. Já alfabetização, expectativa de vida e confiança nas outras pessoas aumentam em países mais igualitários. Todos exemplos que estão diretamente ligados às áreas mais urgentes para os brasileiros: segurança, educação e saúde.

A mobilidade social, ou seja, a capacidade de um indivíduo mudar de classe, também aumenta em países mais igualitários. É mais fácil um pobre enriquecer se morar em uma economia menor como a da Finlândia do que no Reino Unido. Ou, como diz o professor Wilkinson: “se você quer viver o sonho americano, vá morar na Dinamarca”. A desigualdade é o começo do fim da meritocracia. No Brasil é impossível dissociar essas duas coisas, a não ser por ignorância ou má fé.

Até mesmo problemas bem contemporâneos de saúde pública como a obesidade estão ligados à má distribuição de riqueza. Artigo recente na revista liberal inglesa The Economist mostra as evidências de que enquanto as crianças mais ricas emagrecem, as mais pobres engordam. Em Camberwell Green, na Inglaterra, 50% das crianças entre 10 e 11 anos estão com sobrepeso ou obesas. Na região de Dulwich Village, onde a renda familiar é duas vezes maior, esse número cai para apenas 20%.

Qualquer debate para resolver nossos problemas precisa passar sobre como reduzir nossa calamitosa concentração de renda

Se a desigualdade consegue provocar danos em tantos países, não é difícil concluir que ela estraçalha a saúde, a educação e a segurança no Brasil. Qualquer debate para resolver nossos problemas precisa passar sobre como reduzir nossa calamitosa concentração de renda. Tributação progressiva, taxação de fortunas, renda mínima, políticas de inclusão. São muitas as propostas e os resultados que podem ser verificados em várias partes do mundo.

Para se desviar do enfrentamento da desigualdade no Brasil, já ouvi que primeiro é preciso crescer o bolo para depois repartir. Em um país que tem a 9ª economia do mundo, entretanto, esse argumento é cínico. A verdade é que o bolo é grande e pouquíssimos se lambuzam.

O Banco Mundial aponta que em 2015 gastamos 4% do PIB com subsídios para empresários, valor equivalente a oito programas Bolsa Família. Os 10% mais pobres gastam 30% da renda com tributos. Os 10% mais ricos, quando não sonegam, 21%.

Como aponta Marcos Pinto, mestre em economia pela FGV-RJ, há também um foco eleitoral no tamanho do Estado brasileiro. Sempre há candidatos para bater nessa tecla e não faltará quem grite pedindo votos para reduzir a participação do Estado e os impostos, embora o tamanho do Estado brasileiro esteja em sintonia com o de países desenvolvidos e nossa carga tributária sobre o PIB esteja abaixo da média da OCDE. A diferença é que países mais justos colocam o Estado para reduzir a concentração de renda. No Brasil, é o contrário. O Banco Mundial aponta que em 2015 gastamos 4% do PIB com subsídios para empresários, valor equivalente a oito programas Bolsa Família. Os 10% mais pobres gastam 30% da renda com tributos. Os 10% mais ricos, quando não sonegam, 21%.

Quando se finge que tamanho desequilíbrio entre ricos e pobres não existe ou é normal, a única promessa que será cumprida é a de que velhos problemas continuarão insolúveis. Ignorar a extrema concentração de renda brasileira não é por acaso. É uma estratégia para quem deseja que tudo permaneça como está. Mais uma consequência da nossa imensa desigualdade.

Veja mais:

A impactante imagem que ilustra esse artigo foi feita em 2004 e você pode conhecer mais sobre ela no site do fotógrafo e artista Tuca Vieira

Conheça também outras imagens que evidenciam a desigualdade social pelo mundo.

Como você gosta de ler, conheça também meu canal sobre livros e cultura no YouTube

Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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