Quanto custa sua opinião?

Confusões envolvendo influenciadores digitais se tornaram tão corriqueiras que fica cada vez mais difícil separar o que é banalidade do que vale discussão em um texto longo.

Havia fechado esse artigo no sábado inspirado por uma polêmica, quando no domingo outra surgiu confirmando a constatação das primeiras linhas. Resolvi manter o foco. O caso mais recente envolve a acusação de uma agência em contratar perfis no Twitter para elogiar o PT e também toca em alguns pontos que gostaria de abordar. No entanto, por se tratar de política, teve repercussão mais ampla. Além disso, é uma prática ilegal de acordo com a legislação eleitoral, que permite apenas o impulsionamento de partidos, candidatos e coligações direto nas redes sociais.

Por isso gostaria de abordar outras situações que possuem uma zona nebulosa onde o certo, o errado e o duvidoso são menos evidentes.

O caso Booktuber x Escritor e críticos literários

Booktuber é um termo (do qual não gosto) para quem fala de livros no YouTube. Nas últimas semanas, um embate se alastrou sobre um episódio que envolveu um escritor e a booktuber mais popular do Brasil. O contexto: o escritor mandou um e-mail pedindo para divulgar seu livro. A influenciadora o respondeu com uma tabela de preços, com diferentes modalidades de conteúdo em que ela poderia falar de sua obra. O escritor publicou o e-mail que recebeu e comentou que a prática da influenciadora era “jabá”. O caso se estendeu e ainda gera rescaldos entre os fãs de literatura, jornalistas, críticos literários e seguidores da booktuber.

Registre-se que a booktuber não se escondeu. Ela detalhou como funciona seu plano de divulgação nas redes sociais. Afirmou que esse é seu método de trabalho e que ele pode trazer um excelente retorno para o cliente. Quem quiser (e puder), que pague.

Pouca gente, além do escritor envolvido, que conseguiu uma divulgação gratuita quando publicou o e-mail da influenciadora, se incomodou ou se surpreendeu com a situação. Mas uma questão permaneceu na minha cabeça.

Opinião tem preço?

No início do século, quando estudava jornalismo uma das polêmicas mais debatidas era sobre jornalista fazer propaganda.

A Rede Globo não permite que os funcionários da redação atuem como garotos propaganda. Não faz muito tempo, nomes fortes (Pedro Bial, Fátima Bernardes, Tiago Leifert) foram alçados para a área de entretenimento e, dessa forma, liberados para ações com marcas. Uma atitude que o tempo sempre confirma como correta, ainda que a emissora tenha flertado com a possibilidade de jornalistas do esporte fazerem acordos com marcas, o que pode vir a ser um tiro no pé.

A meu ver, jornalista não pode ter sua opinião em uma tabela de preços. Mesmo aquele que fala de um tema, vá lá, mais ameno como o futebol, pode se ver na berlinda quando uma marca que o patrocina assina um acordo com um clube e começa a interferir na política do time. Aí, adeus isenção.

Mas e quando se trata de pessoas comuns, os influenciadores digitais, que aglomeram milhares de fãs em seus perfis e são remunerados para elogiar um produto?

Falar bem de um refrigerante, um esmalte ou até um livro é comum em todas as redes sociais. Ainda assim, a regulamentação doConar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) determina que posts com conteúdo publicitário devem informar os usuários sobre seu caráter comercial.

O problema é como fiscalizar, já que para as marcas e agências o elogio “espontâneo”, mesmo que espontaneamente falso, tem mais valor do que um informe publicitário transparente.

Mas será que informar ou não vender a opinião é tão ruim?

Sem entrar em debates éticos ou legais, me contenho ao puro pragmatismo. É bom lembrar que os formatos digitais são novos e muita coisa ainda vai se ajustar. O recente combate às notícias falsas pode transbordar para uma exigência maior para conteúdos autênticos.

Não me parece absurdo pensar que em breve se eleve a exigência contra as opiniões e elogios falsos e, quando o público notar que uma opinião é boa porque é paga, a prática comece a minar a credibilidade de um influenciador digital de maneira irreversível e, portanto, deixar de ser um negócio sustentável.

Sei que muita gente não se preocupa em ver propaganda – até mesmo política – disfarçada de postagem super espontânea, mas será que esse número continuará constante? Ainda há também quem não ligue para uma notícia ser invenção de alguém mal intencionado, desde que ela confirme sua opinião. Mas eu não compraria um carro usado dessa pessoa.

Se um influenciador recebe para elogiar um produto como se fosse natural e não avisa seus seguidores, ele trai quem lhe depositou confiança. Se alguém quer vender a opinião, deve ao menos informar as pessoas que investem frações de seu tempo. Sinal de transparência e respeito àqueles que o fizeram se tornar alguém relevante a ponto das marcas investirem.

Do outro lado do balcão, cabe também às agências, marcas e influenciadores digitais começarem a coçar o cérebro para criar novas soluções, além de simplesmente comprar um elogio. Muita coisa boa tem sido e ainda pode ser feita sem que seja necessário enganar o consumidor.

Em um mundo de fotos falsas, notícias falsas, seguidores falsos, visualizações falsas, candidatos falsos e elogios falsos, uma hora a galera vai se cansar e rever quem está seguindo. Ainda que isso possa ser mais uma esperança do que uma constatação.

Novos veículos, velhos dilemas

As redes sociais são meios mais recentes, mas nem por isso os conceitos que a tocam são novos. Haverá sempre quem culpe a tecnologia ou faça daqueles que a utilizam mal como padrão. Críticas culturais pagas e propaganda política ilegal já existiam antes das redes sociais. Só que agora tudo é em larga escala. As opiniões e a comercialização delas também.

Por isso, a importância da imprensa independente e isenta é fundamental, o que faz da crise do jornalismo no Brasil ainda mais dramática. Parece difícil imaginar conteúdo jornalístico de qualidade totalmente gratuito daqui para frente na Internet. Há uma cadeia de profissionais envolvidos que precisam ser pagos para gerar conteúdo e informação de qualidade e tudo isso é essencial para a sobrevivência da democracia.

Por sua vez, influenciadores que criarem métodos para monetizar seu negócio sem barganhar elogios como o antigo merchandising, tendem a ganhar um público mais cativo e fazer de seu conteúdo um produto com até mais valor. Vale apostar que independência e credibilidade de opinião darão retorno em algum momento não só para jornalistas, mas também para influenciadores.

Na outra ponta, é importante que o consumidor se torne um editor mais rigoroso de seu próprio conteúdo. Estamos cercado por telas e aprender como selecionar um fato de uma notícia falsa ou desconfiar se uma crítica é espontânea ou uma peça comercial nas redes sociais será como lavar as mãos antes do almoço. Um hábito que faz bem para a saúde.

Novas tecnologias podem ajudar a fazer mais gente ler, se informar e se divertir ainda que muitos prefiram fazer delas mais um negócio puramente comercial ou até mesmo sem escrúpulos.

Mas sempre foi assim.

Como você gosta de ler, conheça também meu canal sobre livros e cultura no YouTube

Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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