Você tem novas mensagens (i.e. a mentira nossa de cada dia)

Durante o almoço, sintonizo meu ouvido enquanto a pessoa da mesa ao lado fala para um amigo: “Não estou nem aí que é fake news. O importante é que é a minha opinião”. Ao terminar meu prato, meio indigesto, penso em silëncio: você deve basear sua opinião em fatos, não trocar os fatos por sua opinião.

A mentira em nossos tempos não só deixou de ter perna curta como também ganhou passos largos e amplos poderes. Mas como chegamos a esse ponto?

Mentir é tão antigo quanto a própria linguagem e enganar pode até ser considerada uma habilidade humana. Estudos científicos mostram que crianças desenvolvem seus sistemas cognitivos paralelamente ao ato de aprender a mentir. Todos nós mentimos. Minto para dizer a minha filha que aquelas gomas coloridas são pedrinhas de brincar. Mentimos também para justificar uma escorregada: “desculpe, não terminei o relatório porque meu computador deu pau”.

No filme A vida é bela, o pai mente para o filho, fingindo que um campo de concentração é parte de uma brincadeira, para poupar o garoto do que, na verdade, são os horrores da guerra.

Mas há diferentes motivos para mentir, é claro. Os psicólogos Nobuhito Abe, da Universidade de Kioto, e Joshua Greene, de Harvard escanearam cérebros por meio de ressonância magnética funcional para descobrir que há alterações em partes específicas do órgão ligadas à recompensa quando alguém age desonestamente. Isso quer dizer que quanto maior a possibilidade de se ganhar alguma coisa, maiores as chances de mentir. A ganância aumenta a predisposição do mentiroso para enganar os outros.

A ganância aumenta a predisposição do mentiroso para enganar os outros.

A partir daí fica fácil entender o que já sabemos intuitivamente. Um executivo de uma empresa pode mentir sobre a composição de um alimento pensando que assim terá mais vendas e, portanto, mais lucro. Da mesma forma, um político mente para conseguir mais poder e, portanto, mais recompensa.

Em uma sociedade interligada por celulares em que as mensagens passam de um aparelho para outros milhares em questão de minutos, esta é a cama perfeita para uma mentira deitar e rolar.

E políticos com sede de poder também.

A mentira como estratégia política

Em 2017, o jornal Washington Post contabilizou que Donald Trump alcançou a proeza de realizar 1628 afirmações falsas em 298 dias, uma média impressionante de mais de 5 lorotas diárias. Pois é, a ciência também aponta que narcisistas tendem a mentir mais para tornar sua auto imagem mais poderosa. Tenho certeza de que vocês já viram algo parecido no Instagram.

E os mentirosos seguem trapaceando quanto mais as pessoas acreditam nele. A atitude natural de um ser humano não é desconfiar logo de cara de alguma informação que recebe. No caso do embusteiro ser uma pessoa bem sucedida, poderosa e rica, a probabilidade é ainda maior de que a mentira passe despercebida.

Para piorar, pesquisas mostram que a probabilidade de alguém engolir uma lenda urbana ou uma calúnia aumenta muito quando a história confirma sua visão de mundo. O que isso quer dizer? Quando um político cria uma mentira que esteja de acordo com o sentimento de alguém, ele tem muito mais chance de ser acreditado.

Pesquisas mostram que a probabilidade de alguém engolir uma lenda urbana ou uma calúnia aumenta muito quando a história confirma sua visão de mundo

Agora, imagine esse cenário catalisado, além da rapidez de informação, pelo big data disponível nas redes sociais. Enquanto as pessoas deixam suas informações pessoais a cada clique, permitem a marqueteiros e políticos entenderem exatamente quais são seus preconceitos, seus desejos e seus maiores medos.

https://aosfatos.org/noticias/11-graficos-que-mostram-como-as-pessoas-consomem-noticia-na-internet/

Em pouco tempo estão à mesa todos os ingredientes necessários para um cardápio de mentiras produzidas sob medida para diferentes grupos de pessoas. Uma indústria eficiente de infâmias que podem ser fabricadas de acordo com o gosto do freguês ou do eleitor que, ao ver seus sentimentos ecoados naquela informação falsa, não pensam duas vezes em compartilhar no seu grupo de WhatsApp.

Basicamente esse é o resumo do que Steve Bannon, líder-estrategista da direita alternativa nos EUA, executou com a  Cambridge Analitica mais os dados de usuários do Facebook para ajudar a eleger Donald Trump. Impossível não imaginar que a mesma tática não seria usada em eleições de outros países. Não é mesmo, Brasil?

Mas calma, nem tudo está perdido. Foi a partir disso que se abriu uma nova oportunidade para o jornalismo em todo mundo, inclusive aqui: As agências de checagem apareceram com o nobre objetivo de investigar e desmentir as correntes de invencionices que inundam os celulares.

Só que há um outros obstáculos. As pessoas não trocaram de uma hora para outra seu aplicativo de mensagens por veículos de informação especializados.  Além disso, estudos da psicologia mostram que mesmo depois de uma pessoa ser apresentada aos fatos que desmentem a informação falsa na qual ela confiou, é possível que ela volte a acreditar na mesma inverdade.

Especialistas dizem que isso acontece porque as pessoas tendem a acreditar naquilo que é familiar. Ou seja, quando há a retratação de uma mentira é como se houvesse a repetição daquela informação que a pessoa já viu em algum lugar. Paradoxalmente, o desmentido pode reforçar a crença equivocada.

Por isso, mesmo com agências de checagem dizendo que uma informação não é verdadeira, o estrago de uma mentira que se espalha como fogo no palheiro já está feito. Um prato cheio para quem se alimenta de mediocridade.

Em vez de apresentar propostas e debater no espaço público, sob o risco da contestação e de perguntas desconfortáveis, agora é muito mais fácil para um político agir na penumbra, escamoteado por equipes profissionais que disparam uma quantidade gigantesca de imagens e vídeos com informação falsa todos os dias pelas redes sociais.

É muito mais fácil para um político agir na penumbra, escamoteado por equipes profissionais que disparam uma quantidade gigantesca de imagens e vídeos com informação falsa todos os dias pelas redes sociais

A mentira ainda ganha ares de exclusividade, de uma novidade privilegiada que instiga quem a recebeu a espalhar o mais rápido possível: “vocês precisam saber disso!”

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Joseph Goebbels, gênio da comunicação do partido nazista, sabia disso. O que ele ainda não poderia imaginar é que sua estratégia maquiavélica poderia ser amplificada mastodonticamente com aparelhos celulares.

Mesmo com tanta informação disponível nunca foi tão difícil acessar a verdade.

Os estudos mencionados nesse artigo foram retirados dessa matéria da National Geographic

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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