Michelle Obama, mulheres e a inevitável política

Ainda menina, Michelle recorda uma festa de família em que se encontravam várias tias, tios e primos dos mais diferentes graus. Em um determinado momento, enquanto as crianças brincam, uma das garotas lhe pergunta em tom desafiador: “por que você fala como uma branca?”

“Por que você fala como uma branca?”

Nascida e criada em Chicago em uma família de classe média, Michelle Obama conta em seu livro de memórias sua trajetória familiar, escolar, acadêmica, profissional e, inevitavelmente, ela também fala de política. Não apenas daquele sistema de partidos do qual faz parte seu marido e dos oito anos em que viveu na Casa Branca, mas da política que está no dia a dia de todos.

Seu livro não pretende se passar por um manifesto político. É uma leitura leve. Às vezes parece haver um perceptível e até incômodo cuidado de relações públicas ao abordar determinados assuntos, ao tratar de certas figuras públicas e até mesmo em passar a limpo episódios que podem ter comprometido sua figura pública.

Michelle Obama não foge da política simplesmente porque no seu caso é impossível se esquivar dela

Contudo, Michelle Obama não foge da política simplesmente porque no seu caso é impossível se esquivar dela. De novo, não me refiro à política partidária, dominada por interesses e disputas frias para cargos e holofotes e que ela própria avisa não ter muito estômago. Mas a política crua e impetuosa do cotidiano e da convivência. Aquela que se infiltra por todos os indivíduos de uma sociedade, dos que gostam e dos que detestam política.

“A primeira primeira-dama negra dos EUA”. Esse epíteto sempre acompanha Michelle Robinson Obama e, a partir daí, tudo é política. Afinal, o título de primeira mulher negra na Casa Branca só existe porque há um racismo que, embora seja tão velho quanto a República americana, ainda respira forte.  

O título de primeira mulher negra na Casa Branca só existe porque há um racismo que, embora seja tão velho quanto a República americana, ainda respira forte.

Em suas memórias Michelle traz fatos da vida comum para ilustrar a discriminação racial e de gênero que aconteceram a sua volta e relata como esse sistema fica entranhado na mente de quem sofre suas consequências. Não são poucas as vezes que ela confessa como é difícil, talvez impossível, separar qualquer coisa que vá fazer ou que lhe aconteça do fato de ser mulher e negra. É um fardo, uma herança às avessas.

Michelle também faz uma viagem por temas bem atuais do mercado de trabalho e que ela também precisou enfrentar: a busca por um propósito na carreira e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. E, mais uma vez, ela fala de política. Porque ela não trata desses dilemas sem antes reconhecer que para tantas mulheres como ela essas dúvidas são supérfluas ou, quem sabe, preocupações de brancas. Quantas mulheres negras sequer possuem um trabalho digno?

A atitude de Michelle frente ao seu sucesso profissional não é a de alguém que se considera fruto da meritocracia americana. Em vez de apenas se vangloriar de sua capacidade de enfrentar e superar adversidades, ela reconhece o privilégio de ter nascido em uma família que, se não era rica, era estruturada (o que já lhe trazia uma enorme vantagem entre seus vizinhos e colegas de classe). Para ela, essa estrutura e o apoio que teve deram condições de perseguir os seus sonhos sem ser tragada pelo que ela acredita ser uma espécie de cultura do fracasso, uma rédea invisível imposta aos negros e pobres e que, para ela, se reflete na frase que ouviu de sua prima distante ainda criança.

Michelle é o que muitos chamariam de mulher moderna. Aquela que busca a completa independência, mas ainda segue espremida em uma sociedade que espera do sexo feminino o cumprimento de papéis determinados, mesmo aqueles mais amarelados e desgastados pelo avanço do tempo e dos progressos sociais.

Michelle rasgou o papel típico da primeira-dama, aquele em que a mulher é apenas um bibelô, um acessório presidencial

Em certo sentido, Michelle rasgou o papel típico da primeira-dama, aquele em que a mulher é apenas um bibelô, um acessório presidencial. Ela deu voz a sua posição que, se não é um cargo oficial, pode também ser um instrumento político. Coisa que os estrategistas de Barack Obama perceberam e souberam usar muito bem durante suas campanhas. Talvez isso também explique porque mais do que uma primeira-dama, ela se tornou uma celebridade pop.

Por último, um inofensivo spoiler: para quem imagina que um dia Michelle vá se candidatar a um cargo público, ela refuta qualquer possibilidade de que isso aconteça. É verdade que, muitas vezes, negar é só o primeiro indício de que alguém vá se candidatar a um cargo. Mas, para sustentar sua posição, ela garante que desde os tempos em que era apenas Michelle Robinson sempre se colocou contra as candidaturas de um até então aspirante a político de nome estranho.

De qualquer modo, Michelle Obama não precisa ocupar cargo algum. Goste-se ou não dela, concorde-se ou não com ela, Michelle entendeu que sua figura sempre será uma personagem política. Ela ensina que mesmo que a gente não goste da política, ela sempre contará um pouco da história de todos nós e é só por meio dela que se pode mudar o mundo.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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