Nem conheço você e já sei que está sem tempo

Você prometeu se dar mais tempo para ler, para fazer exercícios, para se dedicar às crianças, para estudar, cozinhar, meditar ou simplesmente ficar em casa. Mas todo dia as tentativas falham miseravelmente. Sei como é. 

Aquele papo de elevador, “o tempo passa rápido”, nunca foi tão verdadeiro. Ele voa mais depressa devorando seus dias. Às vezes sinto estar em busca do tempo perdido me perguntando “como é possível ter tempo pra ler Proust”? 

Passamos nossos dias em uma busca incessante pela produtividade, para que cada hora seja útil. Mas será que isso tem ajudado em nossa relação com o tempo? 

Veja Benjamin Franklin! Teve tempo para ser jornalistaeditorautorfilantropopolíticoabolicionistafuncionário públicocientistadiplomatainventor e enxadrista e em algum intervalo pensou que o avanço tecnológico, com a execução mais rápidas de tarefas, traria mais tempo livre. 

O inventor do pára-raios apostou que uma jornada de quatro horas seria “suficiente para todas as necessidades e confortos da vida”. O que talvez ele não esperasse é que as necessidades, os confortos e, principalmente, as tarefas passariam por uma hiperinflação e, para pagar por tudo isso, você precisa de tempo. Uma lição bem prática de que “tempo é dinheiro”, frase também atribuída a Franklin.  

Em meio a pilha de tarefas que precisamos executar, centenas de notificações e informações que recebemos e todas aquelas coisas que gostaríamos de fazer, o dia segue com 24 horas, exatamente como na época de Franklin, em pleno século XVIII. 

No entanto, a velocidade das mudanças nunca foi tão grande. O intervalo entre as invenções do telefone e da Internet foi de mais de um século enquanto da conexão discada para o 5G somam-se pouco mais de vinte anos. Aceleram-se as mudanças. Se o planeta precisou de milênios para dizimar os dinossauros, o homem pode realizar um colapso climático em algumas décadas.

Em apenas um século, a destruição da biodiversidade do planeta se tornou mil vezes mais veloz. 

O tempo sempre foi um tanto imaterial e precioso para a humanidade. Mas está cada vez mais difícil escolher o que fazer com ele. Achei que devia passar um tempo para ler, pensar escrever sobre essa reflexão enquanto você, ao ler esse texto neste momento, deixa de ver um e-mail de trabalho, os últimos selfies no Instagram ou já teve coceira para checar o WhatsApp que vibrou seu celular. Nosso tempo está em disputa a todo momento.  

Não é sem razão que muita gente já dedica o próprio tempo para entender essas mudanças que fazem os ponteiros do relógio a andarem cada vez mais rápido (para usar uma figura analógica e, portanto, ultrapassada). O filósofo alemão Hartmut Rosa é um dos que têm pensado sobre a aceleração das nossas vidas e as dividiu em três dimensões: a aceleração técnica, a aceleração da mudança social e a aceleração do ritmo de vida.  

Para não gastar muito do seu tempo, tento resumir (embora aconselhe que você dedique mais horas sobre esse assunto): o mundo é um lugar ditado pela velocidade. Tudo precisa ser cada vez mais rápido, até porque pela lógica capitalista perder tempo é perder dinheiro ou, se preferir, produtividade. 

Aquele modelo de smartphone que você comprou há seis meses ficou obsoleto. Já existe um processador duas vezes mais rápido; aquele aplicativo que você baixou já não é mais novo porque seus amigos usam outro e aquele alvoroço da política nacional que você acabou de saber já deu lugar a três novos escândalos. 

As mudanças estão furiosamente velozes e a quantidade de informação é absurda. Enquanto escrevo faço um teste. Ao passar pela minha linha do tempo de uma rede social vi comentários sobre demissões no BNDES, imagens do pôr-do-sol em Marte e soube que a Juju Salimeni se separou pela terceira vez (da mesma pessoa!). Tudo é cada vez mais rápido, caótico e é quase impossível separar o essencial do supérfluo. 

historiador Rodrigo Turin explica que a Internet, em parceria com o celular, é a ferramenta central do processo de aceleração em que vivemos, mas também é nela que provavelmente investimos valiosas e, infelizmente, as mais inúteis horas do dia. Hoje é possível trabalhar pela Internet, pedir seu almoço, pagar suas contas e fazer as compras. Mas também é provável que horas se desmanchem enquanto você está disperso em linhas do tempo das redes sociais sem saber direito o que fazer por lá. 

Segundo pesquisa da We Are Social, o brasileiro gasta mais de 9 horas por dia conectado. Se você dorme oito horas, sobram apenas sete para comer, ir ao banheiro, escovar os dentes, fazer exercícios, se alimentar e, entre uma tarefa e outra, alguns minutos para fazer sexo.

Quanto mais conectados (mesmo que no Tinder, não se engane) menor é nossa interação com o mundo real. Nos tornamos pessoas com menos empatia e exponencialmente mais individualistas. E, claro, transamos menos

“Quando estamos duas horas na companhia de uma moça, parece que passou apenas um minuto. Mas se nos sentarmos, durante um minuto, sobre um fogão quente, achamos que passaram duas horas. É isso a relatividade”. 

Em 1955, Einstein fez essa declaração ao New York times para explicar a relatividade. Talvez porque nada seja tão relativo quanto o tempo. Será que perder tempo é tão ruim assim? Ou então, será que não estamos passando tempo demais sobre o fogão quente sem perceber? 

Apesar de vivermos cada vez mais acelerados, velocidade não é sinônimo de benefício. Pressa não quer dizer rapidez. Nem rapidez é o mesmo que eficiência.

Prova disso é a quantidade de gente (você e eu, inclusive) com pressa para fazer tudo rápido e, mesmo assim, sem tempo para fazer o que precisa. Se tudo é feito com urgência o que, de fato, é urgente?

Espero ter mostrado algumas das razões que consomem nosso tempo muitas vezes sem que a gente perceba. Como já sei que você está precisando correr e não quero tomar mais dos seus preciosos minutos, dividi esse texto em duas partes. Na próxima, vou falar um pouco mais das consequências dessa relação com os tempos modernos.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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