Vida digital: o que você tem a perder em sua corrida contra o tempo

Na primeira parte escrevi sobre como chegamos ao estado de ser surrado diariamente pela velocidade, a dificuldade em domar nossa pressa e a aceleração do tempo diante de tantas mudanças e informações. Mas, para não perder seu tempo, ambos os textos são independentes e, portanto, você pode ler em qualquer ordem.

Nossas mães liam jornal (de papel!), trabalhavam, cuidavam de casa, criavam a gente e ainda conseguiam fazer jantar e acompanhar a novela enquanto você sofre só porque trabalha e cuida de um cãozinho. Diz que parou de ler papel porque se informa pela Internet, mas na verdade só vê mesmo os memes dos grupos do zap e algumas tretas no Facebook.

O que fazemos com o tempo é a chave para entender a falta dele.

Ser multitarefa é um imperativo de mercado. Só que essa condição não parece sustentável ou sequer exequível. É uma idealização que corremos para alcançar e que sempre nos escapa. O ser humano multitarefa cria, na verdade, multi-transtornos. Nós bem que acreditamos, mas talvez não seja possível fazer tudo. Nossos míseros dias não passam de uma voltinha terrestre.  

O ócio, aquele tempo livre que quase não se vê mais por aí, foi e é fundamental para pensar sobre coisas diferentes e pontos de vistas variados. É um estímulo necessário à criatividade, à socialização e foi precioso para mentes que conseguiram inventar e, realmente, revolucionar o conhecimento. Só que em meio a tantas mudanças, a vida parece presa em uma repetição de micro eventos com pouco significado.

A sociedade não tem tempo porque está ocupada em construir um imenso vazio. E, claro, bem rápido. 

A escritora e jornalista alemã Andrea Köhler escreveu um ensaio sobre a espera. Segundo ela, toda essa aceleração e a busca incessante pela produtividade “nos deixa menos tempo para pensar e nos conectar com nós mesmos”. Ela tem razão. A espera é um desafio tão grande para a sociedade que se você quiser explicar o que significa um milésimo de segundo para uma criança basta dizer que, em uma cidade como São Paulo, é a fração de tempo entre o acender da luz verde do semáforo e o primeiro toque de buzina. 

São muitos os efeitos dessa dificuldade em conviver com novas noções de tempo. Sábias eram as vovós que diziam “a pressa é inimiga da perfeição”.

Mas a vida digital é a imposição de que precisamos fazer tudo. E rápido. E perfeito. Como se fosse possível fazer tudo. E rápido. E perfeito. 

Saúde

A busca por fazer tudo mais rápido e perfeito (e ainda exigir que o outro faça o mesmo) somada às mudança de hábitos que as novas tecnologias trouxeram podem ter inúmeras consequências para o corpo e a mente. Não chega a ser coincidência que doenças como depressão e ansiedade aumentam no mundo todo. O Brasil é campeão mundial desta última.

A síndrome de Burnout, definida como um esgotamento físico e mental, está diretamente ligada à vida profissional e se tornou uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A pressão para executar (e bem) tantas tarefas pode ser encontrada em diversos relatos de quem foi diagnosticado com esse distúrbio. 

Em uma esfera mais íntima da vida digital – se é que ela existe -, não é preciso ser psicólogo para notar que dedicar muito tempo para acompanhar como outras pessoas vivem nas redes sociais pode trazer uma sensação de insignificância existencial: “puxa, todo mundo tão feliz e realizado e eu aqui vivendo essa minha vidinha sem sentido”.  

Como muitos jovens passam mais seu tempo com o celular do que qualquer outra atividade, o corpo também parece responder a esses estímulos – ou falta deles. Um estudo recente gerou debate entre cientistas.

A pesquisa sugere que já é possível constatar uma alteração no esqueleto de jovens. “Chifre” (horn, em inglês) é como os cientistas australianos David Shahar e Mark Sayers chamaram a protuberância vista nos raios X de jovens adultos e que os fizeram levantar a hipótese de que a alteração poderia ser causada pela má postura decorrente do uso exagerado de celulares. Alguns estudiosos refutam a ideia, mas basta olhar para uma rua movimentada para contar quantas cabeças estão olhando para baixo simultaneamente.

É inegável que a convivência com o celular mudou não só nossa postura como vários hábitos também.  

Mercado de Trabalho

O que é flexibilização a não ser o fato de que você pode trabalhar e ser encontrado a qualquer hora e lugar do seu dia, inclusive fins de semana? Sim, as ferramentas digitais que deveriam poupar seu tempo, na verdade capturaram e prenderam você em uma masmorra digital. 

Não é de hoje que empresas perceberam como podem convencer alguém a comprar mais prometendo uma dose extra de rapidez (ou de tempo útil). O que você faz quando pede sua comida pelo celular senão comprar o tempo do entregador para usá-lo em outra coisa? 

O problema é que o tempo custa cada vez mais caro. O entregador trabalha mais para entregar em menos tempo e ganha cada vez menos. Talvez você também sinta o mesmo no seu emprego. Se já viu a expressão “precarização do trabalho”, mas não conseguiu uns minutos para saber mais sobre isso, adianto que ela tem relação com essa ideia anabolizada do tempo: fazer bicos, trabalhar por conta própria sem descanso e direitos e ainda ouvir que isso é positivo. Chama-se empreendedorismo e está tudo ótimo. Mas não está. As sociedades e os governos precisam dedicar mais tempo para discutir isso aí. 

Empresas que não buscam alternativas para cuidar melhor da relação de seus funcionários com o tempo estão atrasadas. Algumas startups da nova economia compartilhada  podem ter pinta de descoladas, mas quando espremem seres humanos em nome do tempo (e do dinheiro) não parecem exatamente a serviço de um mundo melhor. No Japão, algumas empresas premiam funcionários que usam o “tempo livre” enquanto outras ao redor do mundo, da Austrália ao Brasil, testam a redução da jornada de trabalho. Na França, desde 2017 existe uma lei que considera hora extra responder e-mails fora do horário de trabalho. 

Não há respostas definitivas, quem sabe algumas pistas.

Pensar em melhorar nossa relação com o tempo é, de certa forma, ter uma DR com nós mesmos. No sempre inspirado texto de Eliane Brum, explica como trocamos a ira pela irritação. O primeiro sentimento, mais profundo e lento, é capaz de uma revolução. Já a irritação passa rápido. Vem e volta sem produzir qualquer mudança. 

Será que estamos criando uma era de nervosinhos incapazes?

Será que tentando fazer o tempo valer mais esquecemos de saber o que (e quanto) ele realmente vale? Talvez seja hora de parar de investir nosso tempo. Até porque “investir” já remete a dinheiro, a lucro, a uma fórmula matemática, como se pudéssemos vencer o tempo. Precisamos reaprender o quê, quando, onde, com quem, como e por que dedicar nossos dias.

Definir o que realmente é tempo útil ou perda de tempo são grandes perguntas desta época. Espero que dê tempo para respondê-las. 

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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