Nepotismo: trabalho em família pode ser um bom negócio. Mas nem sempre

Uma das cenas antológicas da trilogia de O Poderoso Chefão é o beijo fraternal de Michael Corleone (Al Pacino) em seu irmão Fredo (John Cazale), momentos antes do último ser assassinado a mando do primeiro. Quando falamos de parentes e negócios poucas coisas são tão fortemente ilustrativas quanto a imagem de uma famiglia mafiosa. 

No Brasil, dois fatos recentes nos viraram o pescoço para debater nepotismo. O primeiro foi durante a Copa América. Muita gente não gostou de ver o filho de Tite, Matheus Bacchi, como auxiliar técnico da seleção. Em um cargo pretendido por tanta gente qualificada e com tamanha evidência, há quem tenha colocado na conta do favorecimento familiar a preferência do treinador pelo filho. Em sua defesa, Tite pode argumentar que a ascensão de Matheus se deu por conta de um espaço aberto com a saída do então auxiliar Sylvinho, somada a decisão de não se contratar um substituto para o seu lugar. O que fica é uma só certeza: na política, nos negócios e no esporte as aparências importam. 

 Outro episódio que elevou a discussão sobre nepotismo às nuvens foi a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que pretende nomear seu filho Eduardo Bolsonaro ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. Uma decisão que abre caminho para muita controvérsia.  

Nomear filhos é uma prática ancestral, enraizada nas primeiras sociedades tribais e também nos primórdios da formação das sociedades, inclusive a brasileira.

Confiança e lealdade são os valores que empresários, políticos e até mesmo os capi buscam ao nomear parentes. Mas também não é preciso muito esforço para perceber que a concentração de responsabilidades, cargos e salários em poucas famílias é discriminatório e torna a vida mais difícil para quem está fora dos laços consanguíneos. Sem falar que, como constatamos na obra de Mario Puzo filmada por Francis Ford Coppola, nem sempre a concentração das funções nas mãos de parentes é garantia de eficiência e confiabilidade. 

A origem do termo nepotismo consta de “nepos”, do latim “sobrinho”. Há também quem aponte para a palavra “nipote”, que em italiano serve para denominar vários parentes de diferentes gerações.

Na Idade Média, nepotismo era como papas e bispos da Igreja Católica, oficialmente celibatários, nomeavam para cargos importantes sobrinhos e, ocasionalmente, também filhos bastardos que se passavam por sobrinhos.

Por aqui, ainda no Brasil colônia, as capitanias hereditárias são a representação do nepotismo confesso na política, mas o costume nunca saiu de cena. Em uma de suas tantas frases certeiras, Millôr Fernandes cravou: o Brasil é um negócio familiar. Uma rápida pesquisa e não serão poucos filhos, netos e parentes de prefeitos, governadores, juízes a exercer um cargo público no Brasil de 2019, ainda que nem todos dependam de uma indicação direta.

No caso específico do presidente as opiniões podem até se dividir, mas não deixa de ser curioso ver uma práxis tão antiga na cartilha de uma política que se autointitula como “nova”. Também não é menos irônico que o filho do presidente seja indicado para um cargo diretamente relacionado a uma nação onde há leis para coibir o nepotismo. Nos EUA, o favorecimento familiar bate de frente com outro valor tipicamente americano: a meritocracia. Por lá, desde os anos 1960s há um estatuto federal antinepotismo, criado depois que John Kennedy nomeou seu irmão Bobby – ainda inexperiente – para o cargo de Advogado Geral, em 1961. 

Está em alguns dicionários em português e inglês: nepotismo é “favorecer alguém baseado em parentesco”. Na seção “Ética e Integridade”, na página da Controladoria Geral da União (CGU) encontrei uma definição mais técnica e ao mesmo tempo direta: “O Nepotismo ocorre quando um agente público usa de sua posição de poder para nomear, contratar ou favorecer um ou mais parentes. O nepotismo é vedado, primeiramente, pela própria Constituição Federal, pois contraria os princípios da impessoalidade, moralidade e igualdade. Algumas legislações, de forma esparsa, como a Lei nº 8.112, de 1990 também tratam do assunto, assim como a Súmula Vinculante nº 13, do Supremo Tribunal Federal”

Ainda assim, é bom dizer: tanto lá quanto cá, o nepotismo nunca saiu da esfera pública e, por isso, a discussão segue efervescente. Não é difícil supor que na maioria das vezes a prática do nepotismo por políticos surja de uma mistura indevida (proposital ou equivocada) entre o público e o privado. 

Não é difícil supor que na maioria das vezes a prática do nepotismo por políticos surja de uma mistura indevida (proposital ou equivocada) entre o público e o privado

No caso das empresas, muitas vezes geradas dentro de um núcleo familiar, a combinação cargos e parentes muitas vezes é inevitável e, claro, não é ilegal embora possa ferir regras de algumas companhias. Há muitos economistas que defendem o nepotismo como um ingrediente saudável para as finanças (e não é só pelo fato de que indicar um parente é mais barato do que contratar um recrutador). Alguns especialistas acreditam que desde o início das civilizações o ser humano tende a proteger a família e os negócios. A junção de ambos funcionaria como uma via de mão dupla.  

Na prática é possível encontrar muitos casos de sucesso e de fracasso quando o assunto é negócios em família. Todo mundo já ouviu histórias de filhos que destruíram, mantiveram ou elevaram o negócio dos seus pais ou avós.  Há quem recomende que quando o assunto é família no trabalho, o melhor é seguir a Lei de Pompéia: “À mulher de César não basta ser honesta, ela tem de parecer honesta”.

Para quem precisa lidar com um parente do chefe no seu dia a dia, para quem está em dúvida sobre promover o sobrinho do amigo ou até mesmo para chefes de estado hesitantes, fui procurar em artigos de especialistas algumas respostas para formular um passo a passo que ajude a diferenciar favorecimento familiar de uma indicação por mérito: 

Não há ninguém mais preparado ou com mais experiência para o cargo? Essa é a questão universal para qualquer relação candidato/vaga. O ideal é que o funcionário demonstre que possui as habilidades necessárias para um cargo mais alto antes de assumi-lo. Muitas vezes familiares precisam provar sua competência depois de assumir um posto. É importante levar em consideração que a vivência do negócio desde cedo pode ser uma vantagem competitiva em uma empresa, mas não é a única condição. 

O indicado responde às mesmas regras que os outros funcionários? Expediente, metas e as obrigações com os superiores precisam ser idênticas a de outros funcionários. Um dos pontos centrais de críticas ao nepotismo é o privilégio dos favorecidos. Se é possível dirimir vantagens, é mais provável que os colegas aceitem melhor a companhia de um parente ou amigo do chefe. No fundo, o que ninguém quer é roer o osso para que só o filho do patrão fique com o filé mignon. 

Quem nomeia para o cargo é responsável pelas atitudes do indicado Dizem que ao atribuir a responsabilidade dos escolhidos para uma posição sobre aquele que indicou foi uma estratégia dos chineses à época do Império e que ela ajudou a reduzir os excessos familiares. 

Ainda sobre a China, há quem garanta que há uns dois mil e quinhentos anos atrás, a restrição familiar e a indolência da gente mais nobre levou muitos negócios à bancarrota rapidamente. A partir daí, pessoas mais bem preparadas começaram a ser recrutadas das classes mais baixas. O filósofo Confúcio teria sido um deles e, portanto, um exemplo famoso – e muito antigo – de alguém diretamente beneficiado com a redução do nepotismo.

Leia outros artigos meus publicados no LinkedIn

Como você gosta de ler, conheça também meu canal sobre livros e cultura

Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s