Quando trabalhar pelado aumenta a produtividade

Não seria correto afirmar que o escritor francês Victor Hugo, nascido no início do século 19, era um empreendedor inovador altamente focado na produtividade. Seria um anacronismo, além de uso indevido da linguagem. Mas a verdade é que o autor de clássicos como o Corcunda de Notre-Dame era, como a maioria das pessoas que vivem das palavras, um profissional autônomo. 

Ainda que herdasse a origem aristocrática, Victor Hugo ganhava dinheiro mais ou menos de acordo com os escritos que produzia. Era uma celebridade do seu tempo, mas às vezes também enfrentava problemas simplórios como, por exemplo, manter a concentração no trabalho. 

Há uma história sobre ele que poderia até passar por lenda se não houvesse testemunhas. Conta-se que, para driblar a procrastinação, Victor Hugo se trancava pelado em um quarto apenas com papel e caneta. Foi a forma que encontrou para não sair dar uma volta, bater um papo na rua e, entre uma ocasião e outra, perder um dia de trabalho. Dizem que ele fazia questão de deixar suas roupas com os criados, talvez como acréscimo de garantia.

Nas memórias de sua esposa, Adèle Foucher, há relatos de que para escrever O Corcunda de Notre-Dame, Victor Hugo comprou um longo xale e o trajou da cabeça aos pés. Foi só o que vestiu depois de trancar suas roupas mais apropriadas para passeios. Tudo “para que ele não fosse tentado a sair e entrasse em seu romance como se fosse uma prisão”, diz aquela que recebeu mais de duzentas cartas de amor do autor do livro O último dia de um condenado

Se fosse vivo, além de ser massacrado nas redes sociais por ser um apaixonado e convicto opositor da pena de morte, Victor Hugo também precisaria trancar o celular junto com sua roupa ou sua tentativa de ser mais produtivo fracassaria miseravelmente. Ficar sem celular é a nudez dos novos tempos. Já tentou? 

Embora possa ser considerada pouco ortodoxa, essa passagem da vida do escritor é ilustrativa para a rotina de muita gente que trabalha por conta própria (ou não!) e precisa desenvolver mecanismos de defesa para escapar das armadilhas da procrastinação – que vão muito além da pronúncia. 

Não é fácil colocar limites em si mesmo para concluir as tarefas diárias e é tentador pensar que existe uma receita infalível.

Tomar banho gelado pela manhã, comer proteína ou escrever pelado, não importa. Se Victor Hugo estivesse pelas redes sociais e vendesse seu hábito pouco convencional como hack de produtividade talvez fosse imitado por muita gente. Mas saber o que funciona para você depende de autoconhecimento e, como no caso do escritor francês, é quase sempre muito subjetivo. 

No meu caso, refém de uma personalidade tão sociável quanto a de Victor Hugo, permanecer trancado e isolado no meu cubículo tem sido um enorme desafio desde que passei a trabalhar como profissional independente. Se não fizesse frio por esses dias em São Paulo, quem sabe não me pegasse colocando à prova a receita naturista de Victor Hugo.

David Bellos, um dos biógrafos do gênio francês afirma que, para escrever Os Miseráveis, ele recebeu 300 mil francos, quantia que atualizada daria mais de uma dúzia de milhões de reais, o valor mais alto pago pelo trabalho de um escritor até hoje. 

Ao contrário da sua técnica para aumentar a produtividade, infelizmente não tenho informação sobre como Victor Hugo desenvolveu suas habilidades de negociação. Mas aposto que não seria uma história tão boa quanto escrever nu.  

No entanto, vou tentar acalmar sua ansiedade ao dizer que Victor Hugo já era consagrado enquanto negociava a proposta daquela que seria sua obra mais monumental. Os Miseráveis foi um sucesso desde seu lançamento e certamente seus editores não se arrependeram de lhe pagar tão bem.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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