Tecnologia: você não está no controle

Hoje nada é mais difícil de se falar do que sobre tecnologia. Simplesmente porque tudo é tecnologia. Um entusiasta da tecnologia pode ser especialista em 5G, pesquisar sobre inteligência artificial, ser conhecedor de robótica, aeronaves ou efeitos especiais para o cinema. Todos estamos envolvidos por ela. Mas talvez mais difícil do que falar sobre tecnologia, é escapar do seu controle. 

Há algum tempo assistia a uma das intermináveis discussões sobre futebol na qual comentaristas discutiam por horas sobre o VAR. Ao longo da conversa que parecia não chegar a lugar nenhum pensei que talvez estejamos em um momento decisivo para saber quem, de fato, está no controle da situação: nós ou a tecnologia? A sigla – Virtual Assistant Referee – dá nome à ferramenta desenvolvida para ajudar nas decisões da arbitragem. Mas o que diziam os comentaristas esportivos é que talvez ela estivesse atrapalhando os juízes (ou os juízes se atrapalhando com ela). 

A tecnologia, pura e simplesmente, não resolve todos os nossos problemas. Ao contrário, ela pode trazer atualizações piores para a realidade

O VAR (ou a arbitragem brasileira utilizando o VAR) mostrou que a tecnologia, pura e simplesmente, não resolve todos os nossos problemas. Ao contrário, ela pode trazer atualizações piores para a realidade. Se o celular acabou com as discussões legais de muitas mesas de bar, o VAR gerou uma das discussões mais chatas das mesas redondas futebolísticas. Mas claro que a culpa não é do VAR, nem do celular. Muito menos de quem os inventou. Não há necessidade de se demonizar ou evitar o avanço tecnológico, mas refletir sobre os efeitos colaterais dele.

A partir da chegada do VAR, muitos árbitros passaram a confiar nessa tecnologia para tomar qualquer decisão, exatamente como você faz com o Waze até para ir à esquina comprar pão. A tecnologia, portanto, transforma o comportamento. Seja o juiz de futebol que espera a decisão do vídeo para apitar o pênalti ou você que tira o carro de garagem e confere o smartphone só para ir à padaria duas ruas acima. Até as tarefas mais simples delegamos para os algoritmos que se alimentam cada vez mais dos nossos dados. Nos tornamos dependentes e, muitas vezes, incapazes de tomar uma decisão sem consultar nosso gênio da lâmpada (e das notificações). 

Nos tornamos dependentes e, muitas vezes, incapazes de tomar uma decisão sem consultar nosso gênio da lâmpada (e das notificações) 

O mal uso da tecnologia não é novidade para os seres humanos. Desde que o primeiro macaco usou um osso para arrebentar a cabeça de um oponente, a humanidade enfrenta problemas para usar ferramentas que surgem de uma forma que isso não cause danos a terceiros ou a ela mesma. O avião, capaz de encurtar distâncias e permitir que mais gente possa se deslocar pelo planeta, também foi o instrumento usado para lançar uma bomba atômica e arrasar Hiroshima e Nagasaki. 

Mas, se olharmos atentamente para os efeitos da tecnologia digital, veremos que talvez seja a primeira vez que essas parafernálias exerçam dominação e controle de maneira tão eficiente e ao mesmo tempo tão sutil. Com tanta informação que deixamos ao usar a Internet, é cada vez mais fácil mapear gostos e hábitos. O celular é capaz de comandar praticamente todas as suas decisões do dia a dia: o caminho, o restaurante, o supermercado, o produto, a receita que você vai fazer com suas compras, o programa que vai assistir enquanto saboreia sua refeição e até a pessoa que passará a noite com você podem ser sugeridos (ou comandados) por algoritmos. Muito embora você tenha a confortável sensação de que está no controle, talvez a realidade não seja bem assim. 

Muito embora você tenha a confortável sensação de que está no controle, talvez a realidade não seja bem assim. 

A situação fica mais temerosa quando extrapolamos questões práticas do dia a dia para assuntos mais complexos como as discussões centrais do planeta: meio ambiente, trabalho e imigração. Presos às grades invisíveis dos algoritmos, chegaremos sempre à conclusão de que todas as pessoas inteligentes que conhecemos pensam exatamente como nós. Enquanto acreditamos que estamos desenvolvendo uma consciência ou uma opinião própria sobre determinados assuntos, não percebemos que, na verdade, nossa prisão tecnológica é que está moldando nossas mentes e algumas pessoas lucrando e se beneficiando disso. 

O mal uso da Internet é tão ameaçador que até o inventor da rede, Tim Berners-Lee, resolveu criar um documento em que reivindica a participação de empresas, governos e pessoas para evitar que o mundo se torne uma “distopia digital”. Nas palavras de Tim, “se deixarmos a Internet como está, muita coisa dará errado”.

O compromisso foi desenvolvido por mais de um ano, envolveu 80 organizações e possui 9 princípios para proteger a Internet. Foi assinado por empresas como Microsoft, Twitter, Google e Facebook e quem não assegurar o cumprimento desses termos poderá ser excluído da lista. 

Privacidade é um dos pontos centrais e o documento estabelece que governos precisam garantir que todos tenham acesso à Internet, mas com seu direito à privacidade respeitado. Outra questão é a democratização da rede para pessoas com deficiência e povos que falam línguas minoritárias. 

E há também um princípio para tratar daquilo que falo no começo do texto: nossos problemas do dia a dia. As empresas são conclamadas a consultar comunidades abrangentes antes e depois de lançarem novos produtos e avaliar o risco de que suas tecnologias espalhem desinformação ou prejudiquem o comportamento e a saúde das pessoas. 

É claro que só um documento como esse não é garantia de que ficaremos livres dos males causados pelo mau uso da tecnologia, mas a sua existência ao menos é um sinal de que há gente preocupada em proteger o mundo de quem só vê nas inovações um meio para tirar vantagens pessoais e econômicas. 

A tecnologia é um estranho paradoxo, mas é preciso conviver com ele. É certo que ela é a única saída para resolver os principais problemas do mundo de hoje como saúde, educação e a desigualdade social. Ao mesmo tempo, temos muitas evidências de que a tecnologia também colabora para o prejuízo da nossa saúde, pode arruinar nossa educação, nossos relacionamentos e ainda aumentar a distância entre trabalhadores e os donos do poder.

Assim como acontece com o aquecimento global, a alimentação e tantos temas centrais para o futuro da humanidade, a tecnologia também se tornou uma causa pela qual precisamos estar atentos e lutar. 

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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