O desrespeito às regras invisíveis e a necessidade de dizer o óbvio

Um dos melhores livros que li em 2019 foi lançado ano passado por uma dupla de cientistas políticos de Harvard, os americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblat. “Como as democracias morrem” analisa a política dos Estados Unidos e entrou rapidamente na lista dos mais vendidos do New York Times. No Brasil, também amealhou milhares de leitores desde as eleições de 2018 por um simples motivo: o principal objetivo do livro é apontar rachaduras no sistema democrático que invariavelmente levam a governantes demagogos e autocráticos. 

Embora tenha foco nos EUA desde a carta de Thomas Jefferson de 1776, documento que inaugura a democracia americana, o texto de Levitsky e Ziblat transita por lugares e momentos distintos ao redor do mundo: a ascensão do nazismo e fascismo na Alemanha e Itália, as repúblicas latino-americanas, além de governos autocráticos mais recentes como a Rússia de Putin ou a Venezuela de Maduro. Somados, esses exemplos compõem um quadro bastante diverso junto aos episódios mais particulares da política americana e mostram como as tentativas de enfraquecer a democracia possuem características comuns. 

Um traço em especial chama atenção. O livro explica que o sistema democrático é sustentado por um conjunto de regras não escritas, o que os autores chamam – ao menos na tradução para o português – de “grades invisíveis da democracia”. Muitas situações nos mostram como o sistema democrático fica ameaçado toda vez que certas barreiras não oficiais, mas de certa forma evidentes, são atropeladas. 

O sistema democrático fica ameaçado toda vez que certas barreiras não oficiais, mas de certa forma evidentes, são atropeladas

Adversários se convertem em inimigos

Um dos casos citado pelos autores é o poder de obstrução no Senado americano. Embora ele existisse há muito tempo na legislação dos EUA, era uma medida de freio do sistema para proteção de minorias ou de desmandos de um presidente e raramente usada por sua capacidade de atravancar discussões e gerar conflitos que atrapalhavam a cooperação entre adversários políticos. Afinal, se um lado se utiliza dessa prerrogativa, abre-se o precedente para que o outro também o faça em uma próxima oportunidade e o impasse será quase eterno. 

O uso da obstrução cresceu exponencialmente a partir dos anos 1990 e a cada novo mandato adversários a usavam com menos parcimônia. O uso inconsequente foi o rompimento de um acordo de cavalheiros que vigorava há décadas e mostra como adversários passaram a se comportar como inimigos, impedindo votações e colocando em risco a estabilidade do sistema. O problema é que o mal uso da obstrução virou café pequeno se comparado com outras normas que passaram a ser desrespeitadas nos últimos anos.

Atacar os poderes da democracia, como propor o fechamento do Congresso ou do Supremo Tribunal Federal ou elogiar governos autoritários, negar a legitimidade de adversários políticos ou atacar adversários sem provas, incentivar ou tolerar atos de violência, restringir o trabalho da imprensa ou da ciência são atitudes que rompem com normas invisíveis. Pode até não ser ilegal defender ou propagar tais pontos, mas danifica as bases do sistema democrático. 

A democracia é, ou deveria ser, uma caminhada civilizatória para evitar que a humanidade flerte com a barbárie. Sua sobrevivência depende dessas grades invisíveis. Mesmo se pensarmos de maneira mais particular, qualquer relacionamento pessoal ou profissional só perdura se algumas normas não escritas forem respeitadas. Vários comportamentos não são admitidos no seu trabalho mesmo que não estejam em contrato.

Qualquer relacionamento pessoal ou profissional só perdura se algumas normas não escritas forem respeitadas. Vários comportamentos não são admitidos no seu trabalho mesmo que não estejam em contrato.

Infelizmente, muitas dessas normas invisíveis que sustentam a democracia foram rompidas em pouco tempo e em vários lugares do mundo. Para piorar, muita gente achou que poderia compactuar momentaneamente com ideias e atitudes contrárias aos valores democráticos, achando que mais lá na frente seria possível controlar o ímpeto demagógico desses líderes. Um erro que Levitsky e Ziblat também apontam como corrosivos à estrutura democrática das nações.

Não urine no chão, dê a descarga e lembre-se: depois de você outros utilizarão este sanitário. 

Peço perdão pela comparação, mas o tema foi assunto presidencial no Brasil em 2019. O atual estágio da política em certos países lembra aquela placa localizada acima dos vasos sanitários em banheiros públicos, inclusive em grandes empresas, e que parece colocar em dúvida a ideia de que evoluímos constantemente.  Deveriam ser regras básicas de convívio social e de uso do toalete e, portanto, não precisariam estar escritas. Mas a prática mostrou que dizer o óbvio é necessário porque, em algum momento, uma regra invisível começou a ser desrespeitada com frequência. 

O que fazem políticos demagogos do século XXI é utilizar o descontentamento de grande parte da população com um sistema desigual e injusto como forma de atacar a própria democracia – e não corrigir o sistema que alimenta as desigualdades e as injustiças sociais: na política, urinar no chão, ou seja, desrespeitar as regras invisíveis, se tornou mais que um hábito e se transformou em modus operandi de uma estratégia de mobilização, principalmente porque com a Internet essas barreiras civilizatórias se tornaram ainda mais fáceis de se transpor. 

A História ensina que aquele que ignora essas regras democráticas, no banheiro ou na política, um dia vai embora. Mas o legado que se deixa pode demorar muito tempo para ser limpo. Da mesma forma que adotamos sinalizações óbvias em banheiros públicos a fim de tentar evitar que o pior aconteça, precisaremos insistir que respeitar certas regras são fundamentais para que ainda possamos nos chamar civilização.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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