O maior erro da carreira de Raul Seixas

Mais importante nome do rock brasileiro tinha o hábito de não dar crédito para apropriações que fazia de outras músicas

A biografia “Não diga que a canção está perdida”, do jornalista e crítico musical Jotabê Medeiros, é um documento essencial para quem deseja conhecer mais sobre o que se poderia chamar de verdadeira música popular brasileira, aquela que não fica restrita a pequenos círculos de entendidos. 

Raulzito conquistou a crítica e conseguiu abarcar fãs ardorosos em todas as classes sociais, mas é no povão que está seu séquito mais fervoroso. Não é por acaso que o grito “Toca Raul” se tornou um meme em qualquer lugar em que haja alguém com um violão em punho.  

Até mesmo Bruce Springsteen, estrela suprema da música pop americana, mandou Sociedade Alternativa nas apresentações que fez pelo Brasil (a história dessa escolha do repertório é sensacional e tem os dedos de dois jornalistas brasileiros: Álvaro Pereira Júnior e André Forastieri). 

Raul nunca se enquadrou em um gênero específico. Dispensou rótulos e misturava estilos tão díspares quanto o rock and roll cinquentista, o tango e o repente. Seu talento e criatividade são inquestionáveis, mas sua reconhecida originalidade conta com um arranhão que não passa incólume em sua biografia: o hábito de não creditar trechos de outras músicas que muitas vezes usava como base ou quase que integralmente em suas composições. 

Seu talento e criatividade são inquestionáveis, mas sua reconhecida originalidade conta com um arranhão que não passa incólume em sua biografia: o hábito de não creditar trechos de outras músicas que muitas vezes usava como base ou quase que integralmente em suas composições. 

Antes de se tornar um astro, Raul era produtor de mão cheia e um profundo conhecedor musical, o que é suficiente para apostar que não emprestou canções por engano. “Não diga que a canção está perdida” pontua vários episódios ao longo da carreira do Maluco Beleza, mas ficarei em apenas um que considero bastante ilustrativo. Na música SOS, do álbum Gita (1974), Raul claramente usa a melodia e o tema da canção “Mr. Spaceman” (1966), da banda The Byrds. 

Em um tempo ainda distante da Internet (quando o hábito de não dar crédito se tornou hit), era mais difícil identificar as semelhanças, especialmente quando elas vinham de bandas de fora. No entanto, ainda segundo a biografia, Raul foi indagado mais de uma vez sobre essas colagens e, ao justificar o motivo para não dar créditos, chegou a dizer que era uma forma de “descolonização”, como se estivesse a recuperar algo que lhe era devido. 

Em sua defesa é possível suspeitar que a omissão fosse, para usar um termo do autor da obra, uma forma de iconoclastia. Raul era um provocador e nunca se preocupou em esconder suas referências artísticas. Certa vez, em resposta a um artigo no qual é duramente criticado por um jornalista que o acusava de ser um imitador de roqueiros americanos, Raulzito pontuou com classe ao dizer que a lua também brilhava e nem por isso era acusada de imitar o sol. 

É difícil negar que a ausência de menção aos criadores originais não tenha sido uma atitude no mínimo deselegante e evitável embora seja curioso que, ao largo de várias décadas, Raul nunca tenha sofrido um processo por plágio. Talvez um indício de que, se houvesse dado os devidos créditos, em nada teria diminuído a percepção do seu talento nem o tamanho do seu sucesso. 

Certo mesmo é que, entre erros e acertos – no início, no fim e no meio – Raul Seixas sempre nos deixou boas histórias.  

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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