Capas contam a história do coronavírus

Os meios digitais já engoliam as publicações impressas bem antes da pandemia do novo coronavírus. No entanto, mesmo com as pessoas ainda mais conectadas dentro de suas casas e até com medo de folhear um jornal ou uma revista, o formato em papel arrumou um jeito de se comunicar como nenhum outro meio. 

É até paradoxal, mas nesse momento jornais e revistas contam a história do coronavírus com objetividade, criatividade e impacto necessários e até impossíveis de serem replicados em outros meios graças a um elemento único em seus formatos: a capa. As capas podem até ser mimetizadas no digital, mas nunca trazem a mesma força. O que se vê é a reprodução digitalizada delas, como se fossem “stories” desses veículos. Imagens verticais capazes de resumir um momento assim que tocam nossas retina, mas com uma vida bem mais longa do que 15 ou 20 segundos. 

Separei algumas capas que traçam uma linha do tempo do Covid-19. 

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Em 19 de março, os jornais argentinos unificaram suas capas para combater o vírus que ainda dava seus primeiros passos na América Latina. Foi um símbolo de um necessário esforço conjunto para derrotar a pandemia. Ou a coletividade ficaria acima do individualismo ou perderíamos a batalha. Em 23 de março, os principais veículos brasileiros fizeram a mesma coisa. Com as capas unidas, uma certeza: a de que a imprensa exerce papel insubstituível em um momento em que a informação pode salvar vidas. 

Poderia ser uma revista do Batman, com uma tomada de Gotham City em um dia normal. Mas a capa de The New Yorker no início de abril mostrava a realidade da cidade de Nova Iorque. O epicentro de Covid-19 deixava a Europa e se instalava nos EUA e, principalmente, entre os nova iorquinos. A imagem de um entregador solitário também diz muito sobre as relações de trabalho durante o isolamento. Eles se multiplicaram mesmo enfrentando as baixas remunerações – que diminuíram ainda mais com o aumento da oferta desses profissionais – e os altos riscos de ficar a maior parte do tempo nas ruas e muitas vezes sem os equipamentos de segurança necessários.

A Vogue de Portugal trouxe um beijo entre mascarados capaz de retratar diferentes aspectos. Abrir mão da liberdade se tornou uma obrigação para conter a rapidez da contaminação. As mais simples demonstrações de afeto com um abraço ou um beijo também precisavam esperar. Enquanto o vírus se espalhava, a ciência também corria para entender e explicar como poderíamos agir para freá-lo. As máscaras, que antes eram recomendadas apenas para contaminados e profissionais de saúde, passam a ser item obrigatório para qualquer cidadão se proteger e cuidar do próximo.

Uma das mais tradicionais revistas de esporte dos Estados Unidos, a Sports Illustrated trouxe uma arquibancada vazia em sua capa. Com as competições esportivas paralisadas, não há público nos estádios e ginásios. Campeonatos de futebol no mundo todo e grandes ligas como a NBA ficaram suspensas. As Olimpíadas, canceladas apenas durante a Segunda Guerra Mundial, foram adiadas e ainda se discute a possibilidade ou não da realização em 2021. As imagens de atletas se exercitando em suas casas se tornaram comuns enquanto a solidão e o tédio para os fãs de esporte ficaram ainda mais severos. 

Impacto é a palavra de ordem nas capas e a edição mexicana da revista Marie Claire foi fundo ao reproduzir uma profissional de saúde com o rosto marcado pelo uso das máscaras. A mensagem “Verdadeiras influenciadores”, convidava à reflexão sobre a importância da ciência e de quem trabalha para proteger as pessoas com base no conhecimento científico. O reconhecimento de profissionais que se dedicam sem descanso, ficam longe de suas famílias e salvam até aqueles que duvidam da ciência. Publicada em 30 de abril, a capa ressoava no Brasil em um momento que uma das mais conhecidas influenciadoras, que havia sido contaminada pelo novo Coronavírus, dava uma festa em sua casa com direito à aglomeração de pessoas e uma declaração de “f0da-se a vida”. 

Em sua edição de maio, a revista brasileira Piauí exibe a sua versão do beijo da morte. O expediente do beijo, que se tornou uma marca – por vezes usada em exagero pela revista – dessa vez continha o retrato do que o mundo inteiro assistia estupefato. Enquanto nações e políticos das mais diferentes linhas ideológicas se unem para combater a pandemia, o Brasil apresenta ao mundo um presidente que desdenha não só da capacidade mortal do vírus como também das vítimas. A frase “e daí?” quando perguntado sobre os, até então, 5 mil mortos por coronavírus no Brasil, deve entrar para a história como um dos momentos em que o desprezo pela vida se tornou oficial no país. Além do vírus, brasileiros convivem também com a peste da ignorância.

Em 10 de maio, em O Globo, a capa trouxe o nome das mais de 10 mil brasileiros que morreram em decorrência do novo coronavírus até aquele momento. A contagem diária de mortos desumaniza as vítimas, os familiares delas e também embrutece nossa visão da pandemia. O esforço ao dar nome a cada um mostra que os números são pessoas, com suas próprias histórias e sonhos interrompidos. 

Semelhante ao exercício proposto pelo diário carioca O Globo, o principal jornal norte-americano, The New York Times estampou em sua capa mil vítimas do novo coronavírus. Além do nome, um pequeno obituário com a profissão e a idade de cada pessoa. No momento da publicação, domingo, 24 de maio de 2020, o número total de mortos pela Covid-19 nos Estados Unidos alcançava a marca de 100 mil. O esforço em humanizar quem acompanha cada ser humano que se vai pela pandemia do vírus fica cada vez mais difícil conforme as números se tornam estratosféricos. Por isso a importância de contar um pouco da história de vida de cada uma dessas pessoas, como por exemplo: “Joe Diffie, 62 anos, de Nashville, estrela da música country distinguida por um Grammy” ou “Julie Butler, 62 anos, veterinária da cidade de Nova Iorque que trabalhou no Harlem”.

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Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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