Uma escolha que vale mais do que dinheiro

Silvio Santos ensina que não se posicionar publicamente sobre política não significa isenção. Pode ser apenas estratégia 

Há algumas semanas publiquei uma enquete no LinkedIn. Pedi resposta sobre a seguinte afirmação: “LinkedIn também é lugar para falar de política”. 33%, um terço, discordam e acreditam que LinkedIn não é lugar para falar de política; 49% concordam que a rede profissional serve também para esse assunto; 8% não sabem ou tanto faz e 10% preferem notícias à opinião. 

Obviamente não há valor estatístico na enquete. É apenas um termômetro para saber quanta gente vou desagradar quando tocar no assunto. 

É uma escolha pessoal assumir uma posição política publicamente ou mesmo não querer saber sobre um tema tão espinhoso, especialmente nos últimos tempos. Uma das consequências é a influência nos negócios. Ao se posicionar, qualquer indivíduo, marca ou instituição precisa saber que não vai agradar a todos.

Por outro lado, evitar se posicionar publicamente também não seria uma estratégia e, portanto, uma forma de se localizar no tabuleiro político? 

Um exemplo rapidamente me vem à mente. 

A não ser que você seja daqueles que tiram lições filosóficas do Chaves, o SBT é um canal na TV aberta onde há décadas é possível praticamente passar batido sobre a política. Na emissora do Patrão pouco se trata do assunto. Mais isso não significa que Sílvio Santos ignore ou negligencie o tema. 

O caso Silvio Santos

Ninguém duvida que Sílvio Santos é dos mais hábeis comunicadores que o Brasil já viu. Na biografia “Topa tudo por dinheiro” (Editora Todavia), o jornalista Maurício Stycer conta que Senor Abravanel sempre evitou falar de sua vida privada e publicamente cultivou uma posição dúbia em relação à política. 

Por muito tempo, o apresentador escondeu que era casado. Acreditava que essa informação teria impacto principalmente em sua audiência feminina. Sua estratégia era evitar que detalhes pessoais interferissem em sua imagem ou, ao menos, na imagem que as fãs criavam dele. Mais tarde, em entrevista para Hebe Camargo o empresário declarou arrependimento por omitir publicamente a primeira esposa. 

Sobre política o Patrão foge do seu jeito cuidadosamente espontâneo que cativa multidões.  Nunca encorajou que o jornalismo de sua emissora fosse atuante, opinativo ou comprometido com qualquer bandeira. Mais do que isso, raras vezes o empresário investiu em jornalismo no SBT. Como apresentador e pessoa pública sempre se esquivou de qualquer posicionamento político. O influenciador Sílvio cultivou a imagem de “isentão” muito antes da palavra ser moda.     

Mas Silvio Santos nunca teve dúvidas de que sua emissora era porta-voz de seu negócio (como o carnê do baú, a Jequiti e outras empresas do Grupo Sílvio Santos) e essa engrenagem dependia de um bom relacionamento com os políticos. Concessões públicas para canais dependem do aval de políticos. Política é influência e, muitas vezes, vale mais do que dinheiro e barras de ouro. 

Durante a Ditadura Militar, Sílvio criou o quadro “A semana do presidente” em seu programa dominical. Era uma espécie de peça publicitária com a agenda positiva do mandatário da ocasião. Por puro pragmatismo sempre se posicionou ao lado do poder. O empresário foi generoso com todos os governantes. Apoiou Fernando Collor (depois Itamar) e Fernando Henrique. Não se opôs a Lula, que mais tarde lhe seria útil no caso do banco Panamericano, do qual Sílvio também era o patrão e que foi alvo de uma investigação por fraudes. Nos últimos anos, Silvio também estendeu tapete vermelho – ops, vermelho não! – para Jair Bolsonaro.

Embora tenha trabalhado sua imagem bem distante da política, não se pode afirmar que Sílvio Santos nunca tenha se posicionado. A recente nomeação do genro do empresário para o recriado Ministério das Comunicações mostra que a política faz parte do dia a dia profissional de Sílvio Santos, mesmo que ele não queira. A diferença é que ela não é assunto de palco, mas de bastidores. 

Focaccio

Consultor de comunicação e produtor de conteúdo, eleito Top Voice do LinkedIn em 2019. Já atuei como assessor de imprensa, social media, community manager, editor de conteúdo e BI. Trabalhei em grandes agências de Relações Públicas e Marketing Digital onde aprendi a resolver problemas em pouco tempo, a correr riscos e a produzir conteúdo com o menor tempo e custos possíveis. Há dois anos decidi trabalhar como profissional independente para empresas e executivos. No último ano realizei trabalhos para grandes empresas como Facebook (Ideal H+K) e LinkedIn (In Press Porter Novelli) e dei treinamentos para empresas como Grupo Boticário, Whirlpool, J&J Medical Devices, Cultura Inglesa, entre outros.

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